Com apenas 23 anos, Nelio Biedermann tem experimentado o tipo de sucesso literário que muitos escritores passam uma vida inteira tentando alcançar.
Seu primeiro romance Lázár, uma grandiosa saga familiar ambientada no século 20, teve os direitos de publicação licenciados para mais de 26 países, recebeu críticas acaloradas em veículos como The Guardian e The New York Times e, de quebra, comparações com obras de grandes nomes da literatura como Thomas Mann e Gabriel García Márquez, além de ganhar fãs célebres como Patti Smith e Dua Lipa.
Nelio cresceu nos arredores do lago Zurique como filho de profissionais da indústria do turismo, mas seus antepassados pertenciam à nobreza húngara — os avós fugiram da Hungria para a Suíça nos anos 1950, após as transformações políticas do pós-guerra.

Essa herança e as histórias que ouvia na infância — incluindo visitas a um castelo e a um palácio em Budapeste que pertencia a esses parentes — o inspiraram a rascunhar seu primeiro livro, recém-lançado no Brasil pela Editora Record, aos 16 anos.
Quase como uma fábula gótica com doses de fantasia, nostalgia e fatos históricos, a prosa delicada do suíço acompanha a decadência de uma família aristocrática húngara numa jornada que atravessa gerações, abrangendo o colapso de uma monarquia, duas guerras mundiais e uma revolução.
Em entrevista exclusiva ao Page9, em videochamada de seu novo e primeiro apartamento em Zurique, o jovem autor fala sobre as inspirações por trás do livro, o sucesso repentino, e, claro, suas expectativas para o futuro.

Page9: Você começou a escrever Lázár aos 16 anos, uma idade em que foco não costuma ser o nosso maior atributo. Como foi encontrar a disciplina para escrever este livro?
Nelio Biedermann: “Foi necessário bastante disciplina, mas não foi particularmente difícil porque era algo que eu gostava de fazer, então, eu me esforçava para encontrar tempo para escrever, mesmo que às vezes deixasse de passar um pouco de tempo com amigos ou com a família. Sei que as pessoas idealizam escritores — como escrevem, como aparentam e vivem, mas a verdade é que eu escrevi este livro à mão, no meu quarto.”
P9: Naquele momento você já tinha a ambição de publicar este livro ou escrevia mais por prazer?
NB: “Sim e não [risos]. Quando comecei a escrever, publicar algo me parecia algo muito distante, mas eu definitivamente desejava que isso acontecesse um dia.”
P9: O que te impulsionou a contar esta história?
NB: “Desde muito cedo eu sabia que queria fazer algo com as histórias que minha avó e meu tio-avô me contavam sobre a família. Eu as entendia como histórias muito especiais e um tanto pessoais que me foram entregues. O livro que você leu é minha quinta tentativa explorando essas histórias. Mas a verdade é que amo escrever, não importa sobre o quê. Quando termino um projeto, eu tenho o desejo de começar algo novo quase que imediatamente, mesmo sem ter uma história em mente.”
P9: O livro tem uma estrutura bastante clássica e apresenta uma certa tensão entre um passado romantizado e as partes mais sinistras dele. Como ele se relaciona com o nosso tempo?
NB: “Enxergo muitas similaridades entre aquele e o nosso tempo. Sinto que também estamos vivendo o fim de um período de prosperidade, uma fase transicional caótica para uma nova era que nos parece muito incerta e que nos causa um certo medo. Na minha família, as histórias foram um pouco romantizadas ou idealizadas, mas eu sempre soube que existia um outro lado de que não falavam. É importante olhar para as partes sombrias.”
P9: Você foi surpreendido pela recepção ultra calorosa de Lázár?
NB: “Com certeza! Acho que dá para saber quando um livro vai funcionar ou não durante o processo de escrita, mas eu jamais teria imaginado que estaria conversando com jornalistas brasileiros sobre a publicação do meu livro em português. Na verdade, eu não imaginava sequer que a recepção na Alemanha seria tão boa. Eu sempre tive o objetivo de me tornar escritor e ter meu trabalho traduzido no maior número de idiomas possível, não nego, mas eram objetivos para os próximos dez, vinte ou trinta anos. Isso tudo é muito surreal para mim.”
P9: Alcançar esses objetivos tão cedo faz com que você se sinta pressionado de alguma forma ou, pelo contrário, te dá um aval para trabalhar com mais liberdade?
NB: “Ótima pergunta. Sempre me perguntam sobre a parte da pressão, mas é verdade que para além da pressão existe também um alívio. Eu me pressiono muito sempre e obviamente estarei apavorado pouco antes do próximo livro ser publicado, com medo de ler as críticas e tudo mais. Mas essa recepção positiva me trouxe confiança no sentido de que validou um pouco a minha capacidade. Alcançar esses objetivos me dá não apenas mais liberdade como conforto financeiro para exercê-la e sou muito grato por isso. Mas tenho certeza de que vou continuar a me pressionar. Não porque quero duplicar esse resultado, mas porque hoje percebo que tenho muito menos tempo para escrever e preciso me dedicar.”
P9: No que consiste seu dia a dia hoje?
NB: “Eu tenho passado metade do mês viajando para divulgar o livro e quando estou em casa não consigo ter longos períodos de escrita sem interrupções. Vira e mexe tenho uma reunião a fazer, uma entrevista para dar, um monte de e-mails para responder. Então, agora tenho preferido escrever no final do dia, quando já concluí minhas obrigações. Hoje, por exemplo, vou à minha agência e depois vou me dedicar a um trabalho acadêmico. Eu me formei em Literatura ano passado, mas ainda estou terminando meus estudos em Cinema e preciso trabalhar na minha tese, sobre o filme Hiroshima, Meu Amor (1959).”
P9: Lázár será adaptado para o cinema, certo? Você pretende escrever o roteiro?
NB: “Sim, pela produtora do diretor alemão Tom Tykwer. Fiquei bastante animado com isso. Mas não pretendo escrever o roteiro e, como você pode imaginar, é um filme que ainda vai levar um bom tempo para ser produzido.”
P9: O que você almeja para o futuro?
NB: “Eu alcancei muitos objetivos com Lázár, então, quero simplesmente continuar a escrever e me aprofundar em minha prática, não apenas expandi-la.”















