Boston é uma cidade careta.
Berço da revolução americana que completa 250 anos em 2026, a cidade ainda tem em seu âmago o espírito puritano que dominou o país em seus primeiros anos de fundação. Porém a vibe da cidade mudou desde o início de junho.
Por aqui é difícil encontrar bares que servem bebidas depois das 22h e até mesmo o happy hour é proibido por lei – a legislação de Massachusetts proíbe que restaurantes e bares ofereçam promoções de bebidas em horários específicos nem que vendam “pacotes” de bebidas.
Mas desde que torcedores da Escócia começaram a chegar na cidade para a Copa do Mundo, o clima e as leis mudaram, ainda que provisoriamente.
No início de junho, a governadora Maura Healey assinou uma lei que permite que bares fiquem abertos servindo bebidas até às 3h da manhã até o final de julho. Logo depois, chegaram os escoceses para assistir os dois primeiros jogos de sua seleção em Boston, o primeiro contra o Haiti (vitória escocesa) e Marrocos, nesta sexta-feira (19).
Apesar de ser uma das principais cidades dos Estados Unidos, Boston é pequena, com 600 mil habitantes, então qualquer coisa fora da normalidade chama a atenção. E foi isso o que aconteceu quando homens de saia começaram a circular por aí.
Em uma cidade que se veste de verde durante a temporada de basquete e de vermelho durante a temporada de baseball, o azul marinho e a padronagem tartan das saias pegaram os moradores desprevenidos. Porém foi nos bares que os escoceses fizeram sua fama.
Veja bem, beber (muito) não é incomum em Boston. Uma cidade com fortes raízes irlandesas, o binge drinking é prática razoavelmente comum por aqui, mas foi o histrionismo escocês que chamou a atenção dos locais.

Munidos de seus kilts, gaitas de fole e colocando cones de trânsito no topo de estátuas pela cidade, eles marcam presença onde passam com o barulho do tradicional instrumento ou com cânticos de jogo – algo incomum nos EUA, onde a cultura de arquibancada se limita a gritar “DE-FENSE”.
Nos bares, a euforia dos torcedores por estarem de volta a Copa do Mundo após quase 30 anos se juntou com o calor de 35 graus. Então a mágica aconteceu: a cerveja sumiu. Ou quase isso.
Não foram poucos os bares que relataram estar sem um ou outro tipo de cerveja. A escocesa Tennent’s praticamente sumiu dos cardápios dos bares de Downtown Boston, enquanto a cerveja local Sam Adams (na versão lager), foi escolhida como substituta e também liquidada em todo lugar.
Muitos veículos afirmam que a cerveja “acabou” após o primeiro jogo da Escócia na copa, contra o Haiti em Boston, sábado à noite, porém, todas as lagers vendidas no TimeOut Market da cidade já estavam esgotadas horas antes do jogo.
O barman explicou que o local foi escolhido como o “esquenta” dos torcedores antes de rumar ao estádio, que fica há mais de uma hora de Boston – logo precisavam estar com o tanque cheio. O local ficou sem lagers até essa segunda, quando chegou a reposição.
O que há de concreto até o momento sobre a suposta falta de cerveja na cidade é: a Sam Adams disse que seu Taproom no centro da cidade ficou sem Samuel Adams Boston Lager no fim de semana porque os torcedores escoceses esvaziaram o estoque.
A cervejaria local afirmou em nota que os escoceses consumiram quatro vezes mais Boston Lager do que o bar normalmente vende em um feriado prolongado e que agendaram uma entrega emergencial só para dar conta da demanda.
O Hennessy's Bar, no centro de Boston, disse que as vendas nos últimos dias foram três vezes maiores do que no St. Patrick’s Day – um dos principais feriados da cidade e o dia em que se permite beber na rua – enquanto o Federal Wine & Spirits disse que a porta de um de seus refrigeradores quebrou após tanto abre e fecha.
A paixão escocesa pelo suco de cevada também se estendeu para outros esportes, já que a Tartan Army está aproveitando os dias em Boston para assistir a jogos de baseball dos Red Sox – mesmo que não entendam muito o que está acontecendo.
A presença dos escoceses no estádio de baseball mudou a dinâmica local, trazendo grandes filas para as barracas de bebidas e uma animação da torcida incomum para o esporte americano. Do lado de fora, era possível ver filas de escoceses tocando a gaita de fole.
Ao longo do jogo, os escoceses iniciavam cantos de arquibancada como No Scotland, No Party e Yes Sir, I Can Boogie, sempre com um copo na mão.
A sinergia entre os torcedores de futebol e o Boston Red Sox foi tamanha que o time de baseball fechou parceria com a seleção para dar uma bebida grátis a todos os escoceses que fossem nos jogos dessa semana.
O problema é que eles entendem muito pouco do que está acontecendo, o que gera cenas como essa: um escocês corpulento levanta de sua cadeira no meio do jogo para buscar uma cerveja e indaga um grupo de americanos
— Are we winning? – disse o escocês
— No – diz o americano, com certo desdém
— Are we sheite? – pergunta novamente o escocês com seu forte sotaque (leia-se shit)
— Yes – responde o americano
Eles podem não entender muito o que estão fazendo em Boston, mas com certeza os escoceses estão tendo um dos melhores verões de suas vidas por aqui.














