O protagonista é uma figura de idade indefinida, com forte sotaque europeu, mas que nunca deixa bem claro se é alemão ou um índio nascido entre a fronteira do Brasil com o Peru. Ele vive às margens do Rio Negro e o nome pelo qual se apresenta é Tatunca Nara. Os outros personagens da história incluem um escritor best-seller suíço, um jornalista alemão correspondente no Rio de Janeiro e outros três turistas aventureiros: um suíço (Herbert Wanner), um norte-americano (John Reed) e uma sueca (Christine Heuser), todos desaparecidos misteriosamente. Todos interessados na descoberta de uma avançada civilização perdida no meio da selva.
Qualquer autor que desenvolvesse essa sinopse para um roteiro teria seu trabalho recusado. É inverossímil demais.
Mas é tudo verdade e está em Morte e Mistério na Amazônia, de Tatiana Issa e Guto Barra. O documentário em três capítulos, exibido pela HBO, recupera acontecimentos ocorridos há mais de 40 anos, entre as décadas de 1970 e 1980, e tem como fio condutor a misteriosa figura do guia de expedições apontado como responsável pelo sumiço e pela morte dos estrangeiros em viagem à Amazônia.
Dirigida pela mesma dupla responsável pela série documental Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez, também da HBO, Morte e Mistério na Amazônia investiga a absurda história narrada pelo próprio Tatunca Nara.
Ele, ainda hoje, com mais de 80 anos, garante descender de um povo indígena chamado Ugha Mongulala e diz conhecer o caminho até sua aldeia, Akakor, uma suposta civilização perdida que teria sobrevivido por milhares de anos no coração da floresta amazônica. Uma região abundante e onde as cavernas nunca perdem a luz.
A lenda espalhada por ele — em sintonia com a expansão da mente e com a busca de novas experiências, tão comuns na transição da década de 60 para a de 70 — encontrou solo fértil na imaginação de muitos curiosos.

Logo a seguir, o relato seria impulsionado pelo apoio de nomes consagrados, como o escritor Erich von Däniken, autor do best-seller Eram os Deuses Astronautas? e de dezenas de livros, documentos e teorias sobre arqueologia, antigas civilizações e sociedades secretas. Nos relatos de Tatunca Nara, havia até uma suposta ligação com soldados nazistas que teriam passado pelo Brasil nos anos 1930.
Porém, toda a mentira sustentada pelo falso índio alcança uma nova dimensão a partir de uma publicação do jornalista alemão Karl Brugger, correspondente da emissora ARD no Brasil, que conheceu Tatunca Nara em 1972. Antes de ser misteriosamente assassinado no Rio de Janeiro, em 1984, Brugger, encantado pelos relatos, deu imensa divulgação aos fatos com o lançamento do livro A Crônica de Akakor, publicado em 1976 (hoje o livro, usado, alcança a cotação de até R$ 4,5 mil em sebos virtuais)
Mas, se conseguiu enganar a muitos durante algum tempo, Tatunca Nara acabou se complicando no próprio emaranhado que criou e começou a se afundar na própria mentira. Ao dizer ser filho de um chefe indígena e de uma missionária alemã que sobreviveu a um ataque, Tatunca Nara permite que se descubra que ele – como foi revelado, no final da década de 80, pelo Departamento Federal de Polícia Criminal da Alemanha – é, na verdade, o alemão Günther Hauck, nascido em Coburg, na Baviera, em 1941, filho de um oficial nazista e foragido desde o início da década de 60. Tatunca/Günther deixou a mulher e três filhos em Nuremberg.
Com a mesma crença com que defende a existência de Akakor, a civilização perdida da qual seria descendente, Tatunca nega ser Günther. No máximo, admite não lembrar de nada do que aconteceu antes de 1967.
Mas Tatiana e Guto, com extenso material investigativo, aí incluídos depoimentos de investigadores e de familiares das vítimas na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil, vão desidratando as versões de Tatunca Nara. O documentário reúne ainda um vasto acervo com fotografias, vídeos amadores e reportagens de época, inclusive do Fantástico.
Morte e Mistério na Amazônia confirma o que não é difícil de concluir já nos primeiros minutos de exibição, que Tatunca Nara não apenas é uma fraude, mas está envolvido nos desaparecimentos.
A partir de então, as duas grandes questões que se apresentam são: como a justiça demorou (e ainda demora) em agir e como pessoas preparadas e cultas se deixaram levar pelas histórias de alguém com claros sinais de problemas mentais e que sempre transmitia pouca credibilidade. Num dos depoimentos, um dos policiais suíços que participaram da investigação chegou a garantir que, “se Tatunca/Günther tivesse sido levado à justiça na Suíça, ele teria sido condenado, porque o conjunto de evidências que já existia na época era suficiente para uma condenação”.
Assim, o ponto de partida, bem ressaltado pelo cineasta Jorge Bodanszky (“Quem não gostaria de descobrir uma cidade perdida?”), mostra como Tatunca, um precursor das fake news, criou uma fantasia trágica. E quanto mais os interessados se aproximavam da verdade maior era o risco que corriam.














