A carta foi endereçada para “Riobaldo que está com Medeiro Vaz”. Entenda-se: Riobaldo, jagunço que faz parte do bando chefiado por Medeiro Vaz – que, como todo grupo bandoleiro, não têm logradouro certo. Entre escaramuças com a soldadesca e guerras com jagunços inimigos, os medeiro-vazes, como eram chamados os integrantes do bando, percorriam o sertão de um lado a outro. E o sertão, como diz o próprio Riobaldo, “é do tamanho do mundo”.
Não estranha que a mensagem enviada por uma “moça meretriz” chamada Nhorinhá tenha levado oito anos para chegar a seu destinatário. “Carta que se zanzou, para um lado longe e para o outro, nesses sertões, nesses gerais, por tantos bons préstimos, em tantas algibeiras e capangas,” explica Riobaldo. “E veio trazida por tropeiros e viajores, recruzou tudo. Quase não podia mais se ler, de tão suja dobrada, se rasgando.”
Faz 70 anos que essa carta segue seu sinuoso trajeto pelo mais profundo interior mineiro. Nhorinhá e Riobaldo foram apresentados ao mundo – junto com Diadorim, Zé Bebelo e Hermógenes, entre outros tantos personagens memoráveis – em 1956, quando a editora José Olympio lançou aquele que é talvez o maior romance brasileiro do século XX: Grande Sertão: Veredas, do médico, diplomata e escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967).

Ao longo das mais de 500 páginas do livro, que recentemente ganhou uma edição especial pela Companhia das Letras (compre aqui), é a fala de Riobaldo que nos conduz pelo sertão mineiro (às vezes adentrando Goiás e Bahia).
Ex-jagunço acomodado como fazendeiro, ele rememora sua participação na guerra contra o bando liderado por Hermógenes, homem traiçoeiro que, dizia-se, teria firmado com um pacto com o demônio.
Riobaldo (ou Tatarana, como era chamado entre os jagunços) confessa também seu amor desesperançado por um companheiro de armas, Reinaldo (ou Diadorim, como somente Riobaldo o chamava). Filho de Joca Ramiro, chefe de bando que foi assassinado por Hermógenes, Diadorim ambiciona vingar a morte do pai.
Grande Sertão: Veredas é uma longa conversa, que transcorre na fazenda de Riobaldo. Ele conta suas aventuras e desventuras de jagunço a um interlocutor cujo nome nunca é citado. Sabe-se só que é um homem com educação formal (“invejo é a instrução que o senhor tem”, lhe diz Riobaldo). Nenhuma palavra direta desse homem é transcrita no romance. Lemos só o que Riobaldo fala.
Ouvimos sua voz – sua prosódia ritmada, melódica até quando recorda o fragor das armas nas guerras sertanejas. O ex-jagunço fala um português regional estilizado, na qual palavras arcaicas soam como novidade e invenções verbais parecem datar de tempos esquecidos. Essa língua é a matéria-prima do sertão de Rosa, um espaço belo, amplo, áspero – e violento: “O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”
O diabo, em compensação, parece estar bem instalado no sertão. A obra prima de Guimarães Rosa embute um colorido catálogo dos nomes populares de Satanás: Pai do Mal, Arrenegado, Cão, Cramulhão, Que-Diga, Pé-de-Pato, Azarape, Coisa-Ruim... o protagonista do livro, no entanto, nega a existência do diabo – ou, pelo menos, busca desmentir a ideia do demônio como entidade autônoma: “o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum”.

Por extensão, Riobaldo quer negar a possibilidade de que alguém possa fazer um pacto com o Mal – de que seja possível vender a própria alma: “Decisão de vender alma é afoitez vadia, fantasiado de momento, não tem a obediência legal.” Mas a insistência com que o personagem rechaça as crenças populares no pacto demoníaco trai sua preocupação com a própria alma.
Esse drama metafísico guarda relação com o medo que Riobaldo tem de seu próprio desejo – de seu amor por Diadorim. “Eu estava todo o tempo quase com Diadorim,” diz ele. Em um lance próprio da escrita de Rosa, o advérbio “quase” parece deslocado. Em uma frase corriqueira, teríamos “quase todo o tempo”, mas esse autor não é de frases corriqueiras: ali onde está, o “quase” indica que Riobaldo nunca está inteiramente com Diadorim, pois só tarde demais ele entenderá quem de fato é o objeto de sua paixão. (Hoje, virtualmente todo brasileiro escolarizado conhece o segredo de Grande Sertão: Veredas, mesmo sem ter lido a obra. Ainda assim, deixo o aviso para o improvável leitor que não sabe do que se trata: se quiser se guardar para a surpresa, não leia o último parágrafo deste texto.)
Na maioria das fotos de Rosa, o escritor, com sua indefectível gravata-borboleta, ostenta um ar cosmopolita, talvez até um tanto afetado. Não parece pertencer ao mundo duro e rústico de seus personagens. No entanto, ele se dizia um sertanejo. Ocorre que sua ideia de sertão não conhece limites geográficos: até um alemão, um russo ou um francês poderiam ser sertanejos.

Essa ideia ousada aparece na famosa entrevista que o autor de Sagarana e Primeiras Estórias concedeu, em 1965, ao crítico alemão Günter Lorenz. “Goethe nasceu no sertão, assim como Dostoievski, Tolstoi, Flaubert, Balzac; ele era, como os outros que eu admiro, um moralista, um homem que vivia com a língua e pensava no infinito,” proclamou Guimarães Rosa.
Em meio ao sertão infinito, Guimarães Rosa delicadamente traçou a passagem da carta que uma prostituta escreve a um jagunço que teve por cliente. O tempo que a carta errante de Nhorinhá levou até chegar a seu destinatário abarca o grosso dos acontecimentos de Grande Sertão: Veredas. A morte de Medeiro Vaz, a ascensão de Zé Bebelo e depois do próprio Riobaldo à chefia do bando, uma tentativa de pacto com o diabo, a luta decisiva de Diadorim contra Hermógenes, a renúncia de Riobaldo à vida de jagunço, seu casamento com Otacília e sua conversão em fazendeiro – tudo isso ocorreu em meros oito anos.
A carta de Nhorinhá funciona como um raro marco temporal na narrativa de Riobaldo, que, em sua longa conversa sobre o sertão e o diabo, cita apenas uma data, e ainda assim imprecisa: “11 de setembro de 1800 e tantos...”. Nesse dia incerto no final do século XIX, a igreja de Itacambira registrou o batizado de uma certa Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins.
Este é o verdadeiro nome de Diadorim.














