José Olympio e Andréa da Veiga Pereira acabam de completar 40 anos de casamento. E as artes visuais têm papel central nessa união que gerou, como fruto, uma das mais sólidas coleções brasileiras.
A parceria atenta ao melhor que se produz no Brasil em pintura, escultura, desenho, fotografia e tridimensionais deu origem ao Instituto Galpão da Lapa, um espaço aberto ao público gratuitamente, com visita agendada, na Zona Oeste de São Paulo. Com 1,6 mil m2 de área, o local abriga mais de duas mil obras de arte brasileira contemporânea.
“A primeira coisa que a gente comprou juntos foi um desenho da Djanira. Ainda éramos noivos, tem mais de 40 anos. Reconhecemos o desenho em um leilão, tipo família vende tudo, foi uma oportunidade. Fomos para comprar louças, cristais, mas como sempre tivemos um olhar curioso, encontramos esse achado”, disse José.
A partir desse momento o casal começou, ainda sem saber, uma rica coleção, que hoje conta com nomes como Carmela Gross, Waltercio Caldas, Nuno Ramos, Beatriz Milhazes, Adriana Varejão, Ernesto Neto, Sandra Cinto, Chiara Banfi e Lucas Arruda.

Engenheiro civil de formação, com MBA em Harvard, José teve uma bem-sucedida carreira no mercado financeiro, com passagens em instituições como Garantia, Citigroup, Credit Suisse e Banco J. Safra, tendo chegado à presidência das duas últimas. Ele também presidiu a Fundação Bienal de São Paulo de 2019 a 2023, assim como tem assentos nos conselhos do MAM-SP, Tate Modern e Fundação Cartier.
Apesar desse background, José nunca comprou arte como investimento. “Jamais foi uma decisão de comprar por ser um ativo que ia render. Curiosamente, ao longo dos últimos 30 anos, como classe de ativo foi muito bom. O resultado de apreciação foi uma consequência, não um objetivo”.
Aliás, o casal quando procurado por pessoas interessadas em iniciar uma coleção, sempre recomenda não usar o critério como principal.
“Duas coisas que sempre digo: compre por paixão e se eduque. Até porque o processo é muito prazeroso, mais até do que a aquisição em si. Você conversa, discute, entende de onde o artista veio, qual a sua referência. Faça um curso de história da arte se você está interessado”, indica José.
“O Waltercio Caldas, que é um dos nossos artistas preferidos, tem uma frase que adoramos: ‘o artista é aquele que dentre as coisas que não existem, escolhe o que merece ser visto’. É isso que buscamos”, disse o colecionador.
Muitas das escolhas aconteceram de artistas em início de carreira. “Tivemos a oportunidade de ver muita gente começando. Por exemplo, eu conheci a Sandra Cinto quando ela era assistente da galerista Luciana Brito. Me contou que era artista, pedi para ver o trabalho e me apaixonei. Mostrei para o Zé e ele também se encantou. Com a Chiara Banfi o processo foi semelhante”, recorda Andréa.
O olhar para o novo jamais se esgota. “Me apaixonei recentemente pelo trabalho do Guilherme Gallé. A Brisa Noronha também é outra jovem artista que acompanhamos desde a exposição de estreia”, conta Andréa. “Acredito que fomos um dos primeiros a comprar o trabalho dela”, acrescenta José.

A primeira iniciativa de exibir a coleção aconteceu em 2003, quando o casal transformou o apartamento que havia sido do amigo Marcantônio Vilaça, na Avenida São Luiz, no centro paulistano, em um espaço expositivo. Vilaça, que faleceu prematuramente em janeiro de 2000, foi fundamental na trajetória dos colecionadores, tendo apresentado a eles vários artistas contemporâneos.
Em 2017, Andréa e José reformaram um antigo armazém de café da Ceagesp, que se tornaria o Galpão da Lapa. “Foi uma evolução. Havia a necessidade de armazenagem e conservação, mas também queríamos convidar curadores e diretores de museus para dar o olhar deles para coleção”, explica a colecionadora. “Iniciativas de outros colecionadores, como a de Karen e Christian Boros na Alemanha, também nos inspiraram”.
A artista plástica Anna Israel, filha do casal, foi quem trouxe a ideia de abrir a todos. “Ela nos provocou, nos estimulou a franquear para todo o público, a construir uma estrutura para viabilizar isso. Além da segurança, foi preciso contratar mediadores para as visitas guiadas, entre outras necessidades. O projeto se tornou complexo, mais desafiador, mas estamos felizes em poder compartilhar”, diz José.
Diretora-executiva do Galpão da Lapa, hoje terminando um mestrado no Hunter College, em Nova York, Anna ganhou sua primeira obra ainda adolescente. “Tinha um estranhamento quando os amigos dela da escola vinham para nossa casa cheia de peças diferentes. Mas como ela gostava de moda, aos 14 anos, lhe dei uma obra da Erika Verzutti, então artista iniciante, que trabalhava aplicações em uma saia. Falei, é sua, leva para o seu quarto, você vai conviver e ver que não é estranho”, recorda Andréa.
Antes de terminar a conversa com o Page9, os colecionadores topam o desafio de indicar uma única obra representativa da força do acervo do Galpão da Lapa. “Facas da Carmella Gross. É uma obra-prima brasileira, convivemos com ela por anos, e agora podemos compartilhar esse privilégio. Recomendo ficar pelo menos cinco minutos diante desse trabalho único”, aponta José.
Andréa escolhe Azulejaria com incisura vertical, de Adriana Varejão, da emblemática série Charques. “Eu adoro essa obra que debaixo de lindos azulejos expõe as vísceras, são as entranhas do Brasil. Me faz pensar que tanta vida passou por ali, que uma hora explodiu”, conclui a colecionadora.
Instituto Galpão da Lapa
Rua Campos Vergueiro, 140, na Vila Anastácio.Visitas quintas e sábado, com agendamento feito pelo site galpaodalapa.art.br.

















