O sopro eterno: 100 anos de Miles Davis
Miles Davis sur scène au Festival de jazz de Vienne en France. (Photo by Eric Robert/Sygma/Sygma via Getty Images)

O sopro eterno: 100 anos de Miles Davis

Ao criar seu estilo cool, Miles Davis, com seu elevado senso de respeito e de autoafirmação, imprimiu uma marca ao mesmo tempo original e múltipla

Miles Davis atravessou muitas fases. Usava essa faceta múltipla e complexa primeiro como disfarce, depois como pretexto para criar um outro estilo, como se da dissolução surgisse o material que, plasmado, daria origem à nova forma. Desses muitos Miles surgiam novos Miles, cada qual com sua originalidade, sua personalidade. Da soma de muitos nascia algo único.

A trajetória de Miles Davis se confunde com a própria história do jazz moderno por quase cinco décadas, de meados dos anos 1940 ao início dos anos 1990. E tão fundamental e presente foi sua atuação que Miles continua sendo lembrado ainda nos dias atuais, como na data em que completaria 100 anos, no dia 26 de maio.

O caminho do trompetista – nascido e criado em uma família de classe média de Illinois – começa nos clubes da Rua 52, em Nova York (quando lá chegou para uma temporada de estudos na Julliard), passa por performances ao lado de Charlie Parker e Dizzy Gillespie e segue com ele deixando de ser coadjuvante para se tornar protagonista com o lançamento de um estilo inovador que não apenas batizaria sua música como também se tornaria sua marca: cool.

The Birth of Cool, o álbum, é o nascimento de uma nova etapa no jazz e serve ainda como um manifesto pessoal. O disco ainda se revela como um dos motivos que aproximou Miles Davis da Europa, em especial de Paris, onde passou a tocar com frequência, fez amigos e se envolveu com a existencialista Juliette Gréco. 

De volta aos Estados Unidos, alternou apresentações de sucesso com longas pausas causadas por problemas com as drogas. Por causa do vício, a carreira entraria em decadência, mas antes que a década acabasse Miles ressurgiria com uma nova revolução: o disco Kind of Blue, que redefiniu a forma de improvisar coletivamente. Daí em diante, ele seguiria ainda mais inquieto, aproximando-se de grandes orquestras, buscando novas sonoridades (a música de origem espanhola, por exemplo), dando novas formas ao seu toque de trompete, revelando jovens instrumentistas e gravando discos que, de forma instantânea, se tornariam clássicos imediatos (como In a Silent Way e Bitches Brew).

A partir dos anos 1970 pelo menos dois brasileiros tiveram suas carreiras a ele vinculadas: o percussionista Airto Moreira e o multi-instrumentista Hermeto Pascoal. Foi também nesse mesmo período que Miles veio ao Brasil onde se apresentou duas vezes, em 1974 e em 1986. Estava prevista ainda uma terceira vinda em 1988, mas alegando problemas de saúde, o músico cancelou os shows na última hora.

É provável que a temporada parisiense tenha sido decisiva no aperfeiçoamento de seu bom gosto e no seu interesse por um modo de vida requintado e elegante. Com a cidade, ele tinha uma relação especial, iniciada pela amizade com o poeta Boris Vian e ampliada com o convívio pelas ruas de Saint-Germain-des-Près com pessoas como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Louis Malle, que o convidaria para fazer a trilha sonora de Ascensor para o Cadafalso

EAST RUTHERFORD, NJ - CIRCA 1986: Miles Davis performs at the Amnesty International Concert at Giants Stadium circa 1986 in East Rutherford, New Jersey. (Photo by Images Press/IMAGES/Getty Images)

Miles tinha ainda um elevado senso de respeito e de autoafirmação. Ele queria ser levado a sério e entendia que a escolha das roupas era fundamental. Ainda nos Estados Unidos, ele foi estimulado pelo saxofonista Dexter Gordon a optar por ternos sob medida e por buscar conselhos de alfaiates. Na Europa tudo ficou mais fácil.

Com o tempo, Miles, na mesma velocidade com que fazia revoluções musicais, atualizava seu guarda-roupa. Os ternos e camisas de cortes clássicos, quase sempre italianos, deram lugar a exotismos, com a sua especial predileção por designers japoneses de vanguarda ou então pelas estampas florais de Versace. Ao criar seu estilo cool, Miles simplesmente estava reivindicando a capacidade de se sentir confortável consigo mesmo a ponto de não se importar com o que os outros pensavam.

Todo esse interesse foi resumido por Michael Stradford em MilesStyle: The Fashion of Miles Davis, livro que é uma história visual de como o músico moldou a identidade por meio do estilo. Ressaltando um aspecto pouco estudado, Stradford lembra Miles foi indicado pela Esquire como um dos 75 homens mais bem vestidos da época. 

Como a moda pessoal não era algo isolado, Miles Davis deu ao seu estilo uma extensão na sua paixão por carros velozes. O primeiro símbolo desse interesse foi uma Ferrari vermelha 275 GTB 4 que ele usava para circular pela West Side Highway, em Nova York. 

Depois dessa máquina italiana, comprada em 1969, Miles optou por um Mercedes-Benz 190 SL, um automóvel talvez menos potente, mas que dava ao músico o charme de um clássico. Seguiram-se, pelos próximos anos, outras aquisições, como um Lamborghini Miura, um Jaguar XJS V12 e novamente uma Ferrari, agora modelo Testarossa, com design Pininfarina.

E tudo isso era embalado por um estilo igualmente refinado no modo de morar. Miles Davis teve pelo menos dois endereços icônicos. O primeiro um prédio de estilo “townhouse” localizado no Upper West Side, em Nova York. Na residência da 312 West 77th Street, Miles viveu por 25 anos, a partir do final dos anos 50. O subsolo servia como espaço de ensaio, onde, por exemplo, ele gestou, entre tantos, pelo menos dois discos: os já citados Kind of Blue e Bitches Brew.

De lá, Miles só saiu quando se mudou para o outro lado dos EUA, indo morar numa casa de praia em Malibu, comprada por US$ 1,2 milhão, em 1985. Em busca de uma vida menos frenética, Miles passou a se dedicar mais à prática de esportes (natação e boxe, em especial) e a pintar. Ele morou nessa casa até setembro de 1991, quando foi internado no Hospital St. John’s, em Santa Monica. Debilitado, Miles entrou em coma e morreu no dia 28. O laudo dizia que ele havia sido vítima dos efeitos combinados de um AVC com pneumonia e insuficiência respiratória.

Uma triste ironia que o ar viesse a faltar para um homem que transformava o sopro em arte.

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