Sonny Rollins: o último sobrevivente de uma era do jazz

Sonny Rollins: o último sobrevivente de uma era do jazz

O saxofonista morreu aos 95 anos como o último nome vivo de “A Great Day in Harlem,” um dos registros mais emblemáticos da história do jazz

Sonny Rollins, que morreu ontem aos 95 anos — como foi anunciado por sua assessora de imprensa, Terri Hinte, sem revelar as causas — foi um sobrevivente. 

Ao chegar à longeva idade na ativa, embora, na última década e meia, tocasse, compusesse e gravasse em menor intensidade, o Colosso do Saxofone já era, há pelo menos 70 anos, uma referência para os outros músicos. E dessa maneira sua arte sobreviverá.

Com Sonny Rollins morre também o último representante da famosa foto de Art Kane, registrada em 1958 e que reúne 57 entre os nomes mais importantes do jazz. Em A Great Day in Harlem, Sonny Rollins se não era a figura central, também não era um coadjuvante: já havia colocado seu nome na história com dois álbuns que se tornaram clássicos: Tenor Madness, com seu único encontro gravado com o saxofonista John Coltrane, e Saxophone Colossus, que trazia St. Thomas, adaptação de uma tradicional canção caribenha. Na época, ele também já cumprira prisão e se livrara do vício em heroína, inovara ao dar um novo rumo ao seu instrumento e, por fim, naquele mesmo ano de 1958, escancarara seu ativismo político em The Freedom Suite

Sonny Rollins foi ainda o último sobrevivente de uma geração que surgiu à sombra do bebop de Charlie Parker e Dizzy Gillespie e que modificou os rumos do jazz. De 1950 para cá, ele esteve à frente de todas as revoluções musicais, sempre se equilibrando entre a tradição e a vanguarda. Reverenciava os saxofonistas dos anos 30 da mesma forma que mantinha os ouvidos abertos para as novas tendências.

Nascido no Harlem em 7 de setembro de 1930, Theodore Walter Rollins era o caçula de três filhos de um casal de imigrantes das Ilhas Virgens. Começou a estudar música ainda jovem e, antes mesmo de alcançar a maioridade, já tocava profissionalmente, primeiro com a cantora Babs Gonzales, e, logo depois, com grandes nomes como Miles Davis (que neste dia 26 estaria completando 100 anos), Thelonious Monk e Bud Powell.

Inexplicavelmente, no final dos anos 50, quando estava no auge, Sonny Rollins partiu para um misterioso retiro. Não precisou sair de Nova York — cidade onde nasceu, cresceu e sempre morou — mas afastou-se dos shows e das gravações. 

Estava esgotado. Chegara aos 28 anos, em 1959, com 18 discos gravados sob seu nome e fora o mais aplicado discípulo dos ensinamentos de Lester Young, Charlie Parker e, principalmente, Coleman Hawkins. Era o colosso do saxofone (e também a loucura do tenor), um dos mais completos solistas de seu instrumento. Mas vivia cansado.

O cansaço vinha de anos de vício e também de noites mal dormidas, de sessões de gravações intermináveis, de clubes enfumaçados com palcos exíguos, e da combinação letal de uísques de baixa qualidade com donos de casas noturnas e empresários vorazes. Era necessário radicalizar. Antecipando em quase uma década o ensinamento hippie: era preciso saltar fora.

O marco zero de Sonny Rollins partia da premissa de que o caminho deveria ser retomado do início. Num aspecto zen, o caminhante deveria recomeçar a caminhada — sem saber aonde pretendia chegar. E então Sonny Rollins sumiu. Sua gigantesca figura evaporou-se. Ninguém sabia por onde Rollins andava. Quer dizer, quase ninguém.O repórter Ralph Berton foi atrás, descobriu o paradeiro e, em 1961, a revista Metronome publicou uma matéria sobre um saxofonista que tocava solitariamente no topo da Ponte Williamsburg, uma gigantesca estrutura de metal com mais de dois quilômetros de extensão. Berton fez o registro, mas respeitou a privacidade de Rollins. Na sua matéria, o personagem chamava-se Buster Jones e a ponte era identificada como sendo a do Brooklyn.

Como uma árvore no meio de uma floresta, o saxofonista passava despercebido. Era incógnito no meio de uma multidão de pedestres, motoristas e passageiros de trens, metrôs e ônibus que não se davam conta de que aquele soprador solitário era um dos grandes nomes do jazz contemporâneo.

O período sabático de Rollins foi uma jornada de autoconhecimento. Ele se desligara do mundo musical, abandonara compromissos profissionais (os gastos mais imediatos foram assumidos pela mulher, Lucille, que trabalhava como secretária na Universidade de Nova York) e passara a se dedicar à meditação, à yoga e à leitura de textos sobre budismo, alquimia e temas esotéricos. A decisão pela ponte também teve a ver com a opção pelo isolamento, pela privacidade. Porém, obedecia ainda a um prosaico motivo: como o seu amigo e vizinho, o baterista Frankie Dunlop, estava com a mulher grávida, achou por bem poupá-la dos exercícios musicais e do sopro intermitente. Além disso, “tocar a céu aberto melhora a capacidade pulmonar e o alcance do som do instrumento,” reconheceu ele anos depois. 

Tudo conspirava a favor de Rollins. Os elementos — água, terra, ar — estavam ao seu redor. Ele seguia vinculado a uma metrópole, mas não era mais obrigado a interagir o tempo todo. Podia se mimetizar com o ambiente, virar paisagem. E a ponte, principalmente nas madrugadas, lhe dava a calma e a serenidade — e o silêncio. Partira para sua jornada pessoal cheio de perguntas, agora sentia ter encontrado as respostas. Sonny Rollins havia criado seu próprio mosteiro.

Quando achou que estava pronto, retornou. Voltou a se apresentar em público em novembro de 1961, quando o outono nova-iorquino começa a dar seus últimos suspiros. Estava com a cabeça totalmente raspada e os únicos pêlos eram de um cavanhaque que se projetava de seu proeminente queixo. Abandonara os elegantes smokings que haviam sido uma de suas marcas na década anterior e optara por roupas mais convencionais. À frente de seu novo combo reapareceu na Jazz Gallery, em St. Marks Place. No ano seguinte, gravou um disco. Haviam se passado três anos e três meses desde a última vez que havia entrado num estúdio. O LP — não por acaso — foi batizado como The Bridge

Sessenta anos depois, a íngreme escada de ferro fundido que Rollins escalava diariamente até chegar ao caminho de pedestres da Ponte Williamsburg foi substituída por uma rampa mais acessível. E o prédio onde o músico vivera foi demolido. No local, surgiu outro edifício, mais sofisticado, que trazia apenas uma significativa relação com o passado: chama-se The Rollins.

O homem que cruzou o milênio com uma auréola de cabelos e barba grisalhos permanecia sendo o mesmo músico coerente e ousado. Havia atravessado os anos em constante mutação, adotou instrumentos elétricos e chegou a tocar com os Rolling Stones em Tattoo You, mas se recusou a fazer uma turnê com a banda. Não parou de viajar — no Brasil, esteve duas vezes, na primeira edição do Free Jazz em 1985 e, depois, em 2008 – e permaneceu na ativa até quando, pouco mais de dez anos atrás, foi diagnosticado com fibrose pulmonar. Já não podia tocar nem em casa.

Antes disso havia sobrevivido mais uma vez. Preocupado não apenas com as ideias sonoras, mas também com outros temas como ecologia, globalização e a vida nas grandes cidades, Sonny Rollins foi diretamente impactado pela tragédia do 11 de Setembro. 

As Torres Gêmeas faziam parte da paisagem urbana do músico. Ele morava no 40º andar de um edifício a apenas seis quarteirões do World Trade Center e foi um dos milhares de nova-iorquinos que, logo após a tragédia, teve o prédio interditado e precisou deixar a casa. O saxofonista se mudou para Woodstock, mas, antes disso, decidiu enfrentar o estado de choque em que se encontrava partindo para Boston, exatamente a cidade onde embarcaram os sequestradores dos aviões. 

Quando subiu ao palco na noite de 15 de setembro de 2001 — quatro dias depois do atentado, oito depois de completar 71 anos — para apresentar o show Without a Song — The 9/11 Concert, no Berklee Performance Center de Boston, Sonny Rollins reagia pela última vez. Aos que o aconselharam a não se apresentar, ele respondia: “Precisamos manter a música viva.” 

Um ensinamento que agora precisa ser ainda mais vivo.

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