Nada de descanso. Os hotéis de luxo querem potencializar a performance física, mental e espiritual dos seus hóspedes
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Nada de descanso. Os hotéis de luxo querem potencializar a performance física, mental e espiritual dos seus hóspedes

Com tecnologias de atletas de elite e parcerias com Djokovic e Sharapova, redes como Aman e Six Senses transformam o descanso em otimização biológica. No Brasil, o Rosewood São Paulo mostra que a inovação brasileira está em unir alta tecnologia ao calor humano. Piti Vieira conversou com executivos de wellness dessas marcas.

Você conhece alguém que já tirou férias para dormir? Provavelmente não. No entanto, quando se fala em bem-estar na hotelaria de luxo, a primeira imagem que vem à mente é a de um spa suntuoso ou de um programa de sono com lençóis de mil fios. Mas a fronteira do wellness já se moveu para muito além do descanso passivo.

Enquanto o turismo do sono se populariza como tendência, as redes de ultraluxo estão redefinindo o bem-estar como um processo ativo e mensurável de regeneração. O objetivo não é só apenas relaxar, mas otimizar. A nova hotelaria de luxo não vende descanso, vende performance.

“O sono não é tempo de inatividade passivo, mas um processo ativo e mensurável de regeneração,” diz Yuki Kiyono, head global de desenvolvimento de saúde e bem-estar do Aman. “Cada detalhe, da iluminação circadiana à regulação de temperatura, contribui para o equilíbrio restaurador. O sono se torna uma métrica vital de vitalidade.”

Nessa nova era, os hotéis se transformam em laboratórios de otimização biológica. O Aman, por exemplo, firmou em 2024 uma parceria com o tenista Novak Djokovic, que se tornou o primeiro consultor global de wellness da marca. Juntos, criaram programas de longevidade que integram corpo, mente e alma, baseados na filosofia de “otimização biológica,” que define a carreira do atleta sérvio. O roteiro com o nome do atleta dura dois dias e inclui massagem na sauna, crioterapia, meditação e ioga. 

Os hóspedes do grupo do bilionário russo Vladislav Doronin não apenas treinam com técnicas de atletas de elite, mas também aprendem a cultivar a resiliência mental com a ex-tenista Maria Sharapova, em um programa que ela estreou no Amanzoe, na Grécia. “Ao combinar mindfulness guiado, condicionamento cognitivo e diálogo honesto, ela capacita os hóspedes a cultivar a mesma força mental e compostura que definiu sua carreira,” explica Yuki.

O tradicional hotel gym dá lugar a um ecossistema de performance e conexão, onde os hóspedes treinam, se recuperam e trocam ideias com uma rede de indivíduos com interesses semelhantes. Tecnologias como crioterapia, terapia de luz e banhos de contraste, antes restritas a centros de treinamento esportivo, agora são amenidades-padrão.

Mas a grande inovação está no Cellgym®, tecnologia que simula condições de alta altitude para aumentar a eficiência celular de oxigênio. Disponível em propriedades como Aman New York e Amanzoe, o equipamento permite que os profissionais meçam e otimizem respostas fisiológicas em nível celular, criando intervenções adaptadas ao perfil metabólico e de recuperação de cada hóspede.

Na rede Six Senses, essa abordagem se traduz em “medicina circadiana aplicada”. O programa de sono da marca utiliza wearables e sensores ambientais para monitorar padrões circadianos em tempo real, medindo o impacto de variáveis como luz, ruído e temperatura (idealmente entre 18 e 22° C para promover a melatonina).

“Os hóspedes recebem análises personalizadas que geram dados acionáveis, como ajustes nos horários de exposição à luz para combater o jet lag”, explica Javier Suarez, diretor de wellness do Six Senses Douro Valley, em Portugal. “Esses insights não só melhoram o descanso individual, mas contribuem para uma base de dados científica coletiva que informa futuras inovações.”

A gastronomia também entra nessa equação. O Six Senses integra ciência nutricional em menus personalizados que otimizam a função cerebral e a energia sustentada. Superfoods neuroprotetores como açaí rico em antocianinas e adaptógenos como ashwagandha são medidos através do Integrative Wellness Screening pré e pós-refeição, rastreando métricas como níveis de estresse e claridade mental.

“A gastronomia deixa de ser prazer efêmero para se tornar uma ferramenta data driven que eleva a performance mental”, diz Javier.

Os Biohack Recovery Lounges, presentes em unidades como Douro Valley, Ibiza, Crans-Montana e Kyoto, funcionam como clubes sociais onde executivos e atletas usam ferramentas como Theragun (terapia de percussão) e botas de compressão Normatec para acelerar a recuperação muscular. A tecnologia preditiva, com scanners de estresse corporal e monitores de HRV (variabilidade da frequência cardíaca), ajusta automaticamente a iluminação e a temperatura do quarto para otimizar o descanso.

No mercado brasileiro, conhecido por valorizar o calor humano e o prazer sensorial, essa tendência de otimização biológica se traduz no interesse crescente pelos dados e pela tecnologia aplicada ao sono, mas o público de luxo ainda valoriza muito o lado humano e sensorial. “No Asaya, o que funciona é a combinação dos dois: usamos avaliações físicas e insights de wearables, mas sempre conectados a uma experiência acolhedora, conduzida por profissionais experientes”, diz Ana Flores, gerente de wellness e spa do Rosewood São Paulo.

Segundo Ana, o brasileiro quer dormir melhor e recuperar energia, mas sem abrir mão do cuidado pessoal, do toque e do ambiente que fazem parte da cultura local. “Para nós, a tecnologia orienta, mas quem transforma é a experiência humana.”

Tecnologias como crioterapia, boots de compressão, drenagens avançadas e terapias de luz têm excelente aceitação no mercado brasileiro, mas principalmente quando associadas a protocolos de beleza e recuperação física. “As pessoas buscam resultados rápidos e mensuráveis, desde que integrados a uma experiência agradável e esteticamente refinada”, afirma Ana.

Essa busca por uma experiência que une tecnologia e humanização está impulsionando um mercado em plena expansão. O setor de hotelaria de luxo no Brasil deve receber R$ 8,4 bilhões em investimentos até 2028, com um crescimento anual de 30%, segundo dados da consultoria JLL.

“Vejo o Brasil como um laboratório de possibilidades”, diz Ana Flores. “Somos um país onde o bem-estar é cultural, vivido no corpo, no toque, no ritmo. O que fazemos aqui tem o potencial de inspirar a hotelaria de luxo global pela maneira como entendemos humanização, alegria e presença.”

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