Deu samba

Deu samba

No Rio, esse movimento ganha forma e aponta para uma mudança mais profunda no mapa da moda

“Eu não entendo o Brasil. Eu ando na rua e vejo as pessoas de roupas coloridas e estampadas. Mas quando entro na sala de desfiles, é tudo branco, preto e minimalista.”

Quem me disse essa frase foi Cecilia Dean, ícone de estilo e fundadora da histórica revista Visionaire. Estávamos lá no início dos 2000, sentadas na primeira fila de um desfile de inverno da Huis Clos, todo em tons de branco.

Quem é brasileiro sabe: o Brasil não é mesmo fácil de entender. Ainda assim, em meio ao nosso caos criativo e multicultural, o espírito brasileiro é inconfundível e era captado mesmo quando a moda ainda não sabia como traduzi-lo.

Se o Brasil foi pioneiro em muitas expressões culturais, como a música, o cinema e as artes plásticas; na moda, nos acostumamos a olhar, digerir e a nos inspirar nas tendências e movimentos que vinham de fora. De uma forma geral (pois sempre há exceções), a moda brasileira cresceu mirando o Norte global — as referências europeias e os códigos importados buscavam uma validação internacional. Havia pouco espaço para a cultura popular brasileira nas narrativas e inspirações da maior parte das marcas que desfilavam no eixo SP–Rio.

Para a moda, samba e Carnaval eram percebidos mais como patrimônios culturais do que uma linguagem estética legítima, ainda que o trabalho artesanal e criativo que vemos nos carros alegóricos do Rio sejam tão ou mais incríveis que os desfiles de alta-costura.

A última vez que vi uma “febre Brasil” na nossa moda foi na temporada de Verão 2000/2001 no Morumbi Fashion (pré-SPFW), quando muitos desfiles usaram temáticas ligadas ao universo do Carnaval e do Tropicalismo.

O Brasil estava em alta — havia uma euforia em torno da moda brasileira e de suas modelos, que explodiam nas passarelas e capas de revistas mundo afora. O País era tendência, frescor, calor e um otimismo bem-vindo após o domínio da estética heroin chic. A moda, fazendo seu papel de espelho, refletiu esse espírito na passarela: a Blue Man, ainda sob a direção de Davi Azulay, apostou no artesanal como linguagem, com uma passarela em preto e branco que remetia ao calçadão de Copacabana. Já a Rosa Chá e a Forum inspiraram-se no universo vibrante e tropical (ainda que clichê) de Carmen Miranda.

Mais tarde, a Forum ainda faria seu próprio Carnaval na passarela, com direito a carro alegórico, bateria de escola de samba e cenário assinado por Joãosinho Trinta.

As modelos surgiam com cabeças de plumas, penas e brilhos e Adriana Lima roubou a cena como uma espécie de rainha da bateria. A cada entrada sua, o público e os fotógrafos gritavam e deliravam. O desfile acabou, literalmente, em samba, com os bateristas na passarela e o público aplaudindo de pé.

Mais de 20 anos se passaram e o Brasil volta a estar em alta — e não apenas na moda, visto os recentes prêmios no cinema e na gastronomia. Embora a moda opere em ciclos, o que vemos agora vai além da repetição: o País volta a emergir como linguagem estética porque, nos últimos anos, houve um deslocamento — ainda em curso — do eixo criativo global.

Em 2019, a holandesa Li Edelkoort, uma das maiores trend hunters do mundo, antecipou essa macrotendência, que ela chama de Proud South. “Uma bomba estética criativa está esperando explodir no palco central da moda,” antecipou. O Norte está cansado. E o Sul, em ebulição, como uma potência que estava contida.

Marcas como Maison Margiela e Rabanne, que integram a Semana de Moda de Paris, vieram ao Rio e se aproximaram de códigos distintos: a Margiela olhou para Ipanema e seu pôr do Sol dourado, enquanto a Rabanne incorporou a estética do funk. Já a Dolce & Gabbana entrou de bico no Carnaval carioca produzindo um look para Juliana Paes.

Na edição de estreia do Rio Fashion Week, o movimento se espelha de dentro para fora. Marcas como Misci, Farm e Blue Man apostaram em códigos como o samba e o Carnaval, mas, sobretudo, em uma ideia de Rio como síntese dessa cultura. Mais do que o samba ou o Carnaval isoladamente, é o Rio que emerge como embaixador da moda brasileira.

“Esse movimento de olhar para dentro dialoga diretamente com esse contexto global. Existe uma saturação de uma estética hegemônica que já não responde mais às complexidades do mundo. A gente começa a ocupar espaço não como ‘exótico’, mas como produtor de pensamento, de linguagem, de futuro. Existe uma redistribuição de atenção e, aos poucos, de poder simbólico,” diz Airon Martin, fundador da marca Misci, que encerrou o evento com um desfile apoteótico no Sambódromo, em uma passarela de 150 metros e a energia da Bateria Beija-Flor de Nilópolis.

Esse desfile de alto impacto também consolida a Misci como destaque da moda brasileira, inclusive de exportação — no início do ano, Airon abriu uma loja em Ipanema, que tem vendido muito para clientes estrangeiros.

“Por muitos anos se perseguiu a construção de uma imagem no Brasil para dizer que a nossa moda é chique e globalizada, enquanto a gente não conseguia se impor e se orgulhar dos nossos diferenciais e da nossa cultura,” diz Carol Barreto, artista, curadora e pesquisadora de moda, ativismo, gênero e raça. “Mas nossa moda é composta por diversas passarelas, origens e classes; é uma costura de afetos. O Brasil é uma nação de bem-viver. Então, como a gente transforma esses olhares e ações agora para que esse momento seja perene e traga resultados?.”

A moda brasileira encontra um novo lugar e é o Rio que dá forma a esse movimento, não apenas como cenário, mas como linguagem em uma construção múltipla, atravessada por outras estéticas e narrativas do País. Esse lugar não surgiu por acaso: foi construído ao longo dos anos, à medida que o setor amadureceu e passou a reconhecer seus próprios códigos como potência.

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