Até o astral entrou na sintonia neoliberal, sente só!
É pena que Walter Mercado não viveu para ver de perto o grande ligue djá que virou o mundo espiritual em sua ausência na Terra. Mas em algum lugar entre Porto Rico e o céu ele sabe que o esotérico nunca esteve tão histérico, nem mesmo nos anos 1970, quando Osho convenceu meio mundo de que misturar roxo com laranja daria em samba: deu em suruba, mas voltemos ao presente. A transcendência está à disposição de quem tem tempo e bolso de sobra, servido num bufê zen em ritmo de rodízio numa re-seita do sucesso que enriquece quem ministra e entristece quem acredita nele.
Mapa astral, cristais e florais, banhos de assento e edema de café, mesa radiônica, física quântica, tarô online, retiro de silêncio, cerimônia do cacau, vídeos sobre estoicismo, barra de access, thetahealing express, yoga do sagrado feminino, rebirth na represa Billings, macumba gourmet, leitura da aura, Reiki sem happy end, neurociência, ayahuasca e frases atribuídas a Buda que Buda jamais sonhou em dizer convivem em perfeita harmonia no mesmo universo. Cada crença emprestando à vizinha uma lição (ou tábua de salvação, dependendo do desespero) que nenhuma sustentaria sozinha.
Está no ar o esoterismo dissociativo e a transcendência pela fuga, e não vale culpar os evangélicos ou a Baby do Brasil porque a turma podes crer, da santíssima trindade hype-hippie-hipster, só difere deles pela roupa e pelo CEP. Uns vão ao templo em Cidade Ademar, outros para um Vipassana em Amritsar – deve ser karma.
O capitalismo já ensinava há tempos que acumular substitui escolher, e a alma aprendeu depressa a lição: closet cheio, bateu aquele vazio existencial. Os clubes de orações e correntes de cabala já não preenchem o eco deixado pelos anos de puro hedonismo e ode à vida mundana. A procura por algum sentido continua, só que agora segue o mesmo critério que organiza de relacionamentos a empregos: experimenta-se um pouco de cada coisa, conserva-se o que combina com a narrativa pessoal e abandona-se sem alarde aquilo que exige disciplina, renúncia ou qualquer obrigação que ultrapasse o entusiasmo da descoberta.
Quem antes recorria ao divino para resolver questões terrenas agora faz o caminho contrário e procura se acertar aqui e agora, por conta própria. Quer dizer, quase. A espiritualidade contemporânea está menos interessada na redenção da alma do que na administração do sujeito durante esta vida, que precisa transcorrer com equilíbrio, propósito, consciência, limites bem estabelecidos e uma relação saudável com as próprias sombras.
O espírito entrou no pacote de aperfeiçoamento pessoal e adquiriu método, estética, especialistas e uma surpreendente necessidade de divulgação.
A introspecção, atividade reveladora que nunca imprimiu bem em foto, adaptou-se sem grande resistência às exigências da visibilidade. Retiros entram nos stories e rendem textão revelação, dez dias de silêncio gritam num carrossel de nove imagens, branco com a cara pálida pintada de urucum surge da timeline enchendo a paciência de povo originário, e revelações íntimas são compartilhadas assim que alguém descobre algo sobre si e conclui, na mesma hora, que os outros precisam saber. Afundamos a causa zen na superfície de um brejo e passamos a tratar as questões do espírito da boca e do corpo para fora, falando, posando, vestindo e vibrando energias difusas que sintonizam Krishna e Kardashian na mesma frequência.
A paz interior ganhou valor de exposição. O equilíbrio tornou-se capital social, e a serenidade passou a integrar o repertório de atributos que compõem uma pessoa desejável, ao lado da beleza, dinheiro e de alguma capacidade cognitiva para não passar vergonha na hora do testemunho pós-retreat. Estar bem deixou de ser apenas uma experiência subjetiva e passou a ser currículo, coisa que se aponta, se posta e, sobretudo, se compara.
A arrogância espiritual nasce nessa pequena passagem entre buscar alguma consciência e se imaginar mais consciente. O velho sentimento de superioridade, depois de alguns anos de péssima reputação, descobriu uma linguagem capaz de fazê-lo parecer virtude. Ninguém mais despreza o outro, apenas compreende que ele ainda não chegou lá. A intolerância agora é desencontro de vibes, e o julgamento passou a se chamar percepção.
O resultado pode ser o mesmo de sempre, mas agora vem envolvido em acolhimento, dito em voz baixa e acompanhado de termos cujo conteúdo sai pela língua afora já esvaziado de intenção: empatia, sororidade e, claro, o “ninguém solta a mão de ninguém.”
A psicologia popular também forneceu a esse universo um vocabulário ainda mais eficiente para ficar bem na fita divina. Sua entrada na linguagem cotidiana poderia ser uma excelente notícia, não fosse a humanidade ter feito o de sempre diante de um conhecimento novo: vulgarizá-lo antes mesmo de percebê-lo. Trauma, gatilho, projeção, borderline, apego evitante, dependência emocional, gaslighting e mecanismos de defesa saíram dos consultórios e chegaram às redes sociais com tal velocidade que alguns vêm perdendo o sentido em seu significado – o que era diagnóstico virou xingamento.
O ex agora é narcisista, o chefe psicopata, a amiga limítrofe com traços paranóides, o namorado que só não está a fim de socializar surge com espectro autista e qualquer pessoa que discorde o bastante de nós corre o risco de ser um recalcado que está projetando. Quando a patologia se volta para dentro, o expediente muda pouco: “eu sou assim porque tive uma infância abusiva,” “eu ajo dessa maneira porque tenho stress pós-traumático,” “não consigo me relacionar porque esse é meu padrão de apego.” O sujeito já não precisa dizer que foi covarde, egoísta, um bundão, que não quis, não conseguiu. Apresenta o prontuário e vida (a dele) que segue.
Não há nada de errado em conhecer a origem de um comportamento, é claro, e seria estúpido usar a vulgarização da psicologia como argumento contra a própria psicologia. A confusão começa quando compreender passa a significar absolver. Reconhecer uma causa não equivale a apresentar um álibi, e assumir responsabilidade por uma escolha não exige se declarar culpado por tudo o que aconteceu antes dela. Conhecer o nome da ferida tampouco significa ter deixado de ferir os outros; às vezes só prova que agora fazemos a mesma cagada com um vocabulário mais elaborado.
A popularização da psicologia produziu uma espécie de habeas corpus emocional. Se existe uma causa para meu comportamento, logo deve existir uma atenuante permanente; se consigo localizar a origem do que faço na infância, numa relação anterior ou numa estrutura de personalidade, a responsabilidade pode ser empurrada para trás até alcançar alguém que já morreu, uma situação impossível de reparar ou, nos casos mais sofisticados, várias gerações anteriores à minha. O passado, que deveria ajudar a compreender o presente, acaba promovido a procurador vitalício de nossas escolhas.
Psicologia cosmética e espiritualidade sem chão encontram-se aí com surpreendente harmonia. Uma chama de trauma aquilo que a outra chama de bloqueio; uma fala em padrões, a outra em ciclos; uma identifica projeções, a outra percebe energias; uma procura a origem na infância, a outra prefere investigar algumas encarnações antes. O resultado pode ser uma explicação tão completa do sujeito que, ao final dela, quase não resta sujeito algum para responder pelo que fez.
É nesse terreno que o arquétipo do guru reaparece, num movimento cíclico e por vezes ciclotímico, para assombrar nossas alminhas semipenadas em busca de pertencimento, iluminação e equilíbrio. O guru atual poucas vezes precisa se apresentar como tal, palavra comprometida por algumas décadas de escândalos e documentários. Pode ser facilitador, mentor, jornalista convertido às coisas do espírito, influenciador, ex-modelo, empresário, terapeuta improvisado, dama de companhia ou uma personal trainer que passou três meses no Sri Lanka e regressou a encarnação magra de Ganesh.
Há uma demanda real por essas figuras porque a autonomia, tão sedutora enquanto ideia, revelou-se bastante cansativa na prática. Escolher implica a possibilidade de optar pelo pior, permanecer onde não deveríamos, desejar aquilo que nos faz mal e descobrir que a nossa biografia conta, para o bem e para o mal, com alguma colaboração nossa. Terceirizar a autonomia alivia uma parte desse incômodo; procuramos alguém que nos ajude a encontrar uma verdade que já estaria dentro de nós e, de quebra, ofereça alguma organização para o caos quando essa verdade se mostra menos esclarecedora do que prometia.
Se nada funcionar, há uma cadeia bastante extensa de responsáveis disponíveis: a mãe, o pai, o ex, o trauma ancestral, um chakra bloqueado, uma vida passada, a Lua, o mapa, Mercúrio retrógrado, a mestra do feng shui que colocou o pufe no lugar do bidê e depois disso tudo foi por água abaixo, ou o universo, que além de administrar bilhões de galáxias ainda encontra tempo para fechar ciclos afetivos de gente que não consegue terminar um namoro. Responsabilidade e culpa misturam-se de maneira conveniente, e livrar-se da segunda acaba servindo de pretexto para dispensar também a primeira.
A busca por respostas conserva ainda uma geografia própria. A geração podes crer reloaded encontrou um elo há muito perdido entre Sedona e Santiago de Compostela, com escalas por Nepal, Bali, Peru e coitado do Xingu, estabelecendo uma relação misteriosa entre quilometragem percorrida e profundidade espiritual. Deus, ao que parece, trabalha com milhas.
As terapias chegam dos remetentes de sempre, da Índia ou dos índios, enquanto velhas testemunhas e novos testadores se entregam, com muito suor mental, a exercícios de respiração, meditação, contemplação e postura, anatômica e ideológica, até aprender que não precisam acreditar em tudo o que veem, apenas no que sentem. Impressiona a quantidade de passagens aéreas, retiros, cursos, intermediários e cartões de crédito ainda necessários para alcançar algo que nunca tinha saído do lugar.
A viagem para dentro também exigiu um guarda-roupa próprio. Tecidos naturais, colares, amuletos e objetos de procedência bem distante ajudam a tornar visível uma transformação que, por definição, deveria ocorrer numa região inacessível aos olhos. A alma pode estar desapegada, mas uma boa saia de linho tingida à mão pelas artesãs de Luang Prabang ajuda bastante, porque desapego não significa falta de educação com o comércio local. Volta-se da jornada mais leve, embora nem sempre seja possível dizer o mesmo da mala.
Até aí, estaríamos diante de mais uma combinação falível de busca sincera, consumo, vaidade, privilégio e vontade de pertencer. O fenômeno fica mais estranho quando a versão equilibrada e consciente de alguém deixa de funcionar apenas como imagem oferecida aos outros e passa a organizar a maneira como essa pessoa enxerga a si própria – mas isso é para uma outra conversa.
A performance já não depende mais da plateia apenas, porque o equilíbrio virou personagem, e a personagem cobra de quem a criou uma coerência que a vida por dentro nunca teve. E para isso ainda não há filtro que resolva, mas não duvido nada que depois da harmonização facial, médicos e dentistas vestidos de branco como anjos enviados dos céus passem a oferecer harmonização emocional. Se der certo, a pessoa amada volta em três dias correndo sem precisar da mãozinha da Mãe Xixinha de Obaluê Ianã.















