Em maio deste ano, Lena Dunham subiu as escadarias do Met Gala pela primeira vez em sete anos, vestindo Valentino, depois de um período afastada dos holofotes. A festa aconteceu poucas semanas depois do lançamento de Doente de Fama, autobiografia da atriz e roteirista — cuja versão em português acaba de ser lançada no Brasil pela Editora Record — em que revisita com franqueza a sua turbulenta trajetória de ascensão à fama.
A série Girls, seu bilhete para o estrelato, surgiu a partir da ideia de Dunham de contextualizar a premissa de Sex and the City em que quatro amigas navegam pela vida em Nova York, mas com personagens millennials recém-formadas na faculdade entrando na vida adulta, sem o glamour ou a estrutura profissional de Carrie Bradshaw e companhia.
“Produtos da recessão, essas garotas são superqualificadas e sub-remuneradas, certas de que são espertas demais para seus trabalhos como assistentes, babás e garçonetes, mas não necessariamente motivadas o bastante para provar isso,” defendia o pitch que a criadora, roteirista, diretora e estrela da série escreveu para a HBO, conforme conta no livro. Ela vinha no embalo do sucesso do longa independente, Mobília Mínima, que estreou no festival SXSW, em 2010, e também foi escrito, dirigido e protagonizado por ela, com a participação de amigos e familiares no elenco.
O piloto de Girls foi um triunfo, revelando a jovem como a voz de uma geração, em um timing perfeito: a série estreou em 2012, no pico da cultura millennial — Tumblr, YOLO, FOMO, crise de subemprego, ativismo de sofá. Foi naquele ano que o Instagram foi adquirido pelo Facebook e alcançou 100 milhões de usuários, marcando uma mudança estrutural profunda que veio a definir toda uma década.
É justo dizer que Dunham se tornou famosa no exato momento em que, para bem ou mal, a fama tornou-se algo mais instável. Mais do que nunca, celebridades de todos os calibres passaram a ser constantemente interpretadas e abordadas na internet — e, consequentemente, ridicularizadas, defendidas, virtualmente linchadas, e adoradas.
Depois do sucesso meteórico da série — com direito a indicações e prêmios Emmy —, Dunham virou alvo de elogios hiperbólicos e críticas enfurecidas, entoados no mesmo volume ensurdecedor da internet. Conviver com esses desdobramentos com apenas 20 e poucos anos provou-se um desafio grande para a autora, que diz ser percebida pelos outros como “irritante” desde pequena.
Na nova autobiografia, que sucede o livro de ensaios autobiográficos Não Sou Uma Dessas, de 2014, ela relata tais experiências com muita candura, sem poupar os detalhes que a fazem parecer desagradável e vitimista, mas sem perder a simpatia do leitor.
Em grande parte, é um relato exaustivo sobre o efeito corrosivo de viver publicamente através de um trabalho criativo, algo que se alastrou por todos os âmbitos da vida da atriz, incluindo relacionamentos profissionais, amorosos e familiares.
Não faltam ao livro detalhes dos bastidores da série, como o relacionamento complexo com Adam Driver, revelando um comportamento um tanto tempestuoso do ator no set, e também anedotas sobre almoços regados a vinho e sabedoria com a cineasta Nora Ephron, e sobre uma cantora adolescente — que, dizem por aí, seria a neozelandesa Lorde — com quem seu namorado Jack Antonoff passou muito tempo junto no estúdio.

Dunham e Antonoff viveram um relacionamento de quase seis anos, entre 2012 e 2017, que começou como uma parceria amorosa intensa e foi pontuado por ausências e desgastes à medida que a saúde dela piorava significativamente.
Lena chegou a ignorar sinais de cansaço extremo e relegar tratamento urgente para endometriose e, posteriormente, foi diagnosticada também com Síndrome de Ehlers-Danlos, uma doença do tecido conjuntivo que pode provocar instabilidade articular e dor crônica. Tudo culmina em um vício em medicamentos prescritos que a anestesiavam o suficiente para que continuasse trabalhando Os relatos da atriz refletem a crueza de um sistema que se empenha em proteger o resultado comercial de um projeto criativo ao mesmo tempo em que potencializa uma destruição gradual de quem o concebeu. Ela narra episódios desconcertantes em que se viu obrigada a manter a bola rolando quando estava fisicamente debilitada, incluindo gravar cenas com o cotovelo recém-quebrado, esconder sintomas durante compromissos profissionais, e ser submetida à avaliação de um médico imparcial.
Um desses episódios acontece na ocasião de uma sessão de fotos para a capa da Vogue norte-americana, de que a atriz participa mesmo estando com herpes-zóster e impetigo. Poucas horas depois, o site Jezebel ofereceu US$ 10 mil pelas versões não retocadas das fotos, alegando querer expor o tratamento dado pela revista ao corpo fora do padrão hollywoodiano de Dunham. Ela era, de certa forma, punida pelo público e pela mídia por parecer confortável com o próprio corpo — ainda que, por trás das câmeras, fizesse dietas restritivas em diversas ocasiões.
A controvérsia ajuda a explicar o lugar particularmente desconfortável que Dunham ocupou na cultura da década de 2010. No papel de Hannah Horvath, ela se colocou diante das câmeras de uma maneira deliberadamente vulnerável — nua, sexualmente desajeitada, insegura, neurótica —, tornando cada vez mais tênue a distinção que o público fazia entre a personagem e a mulher que a interpretava.
A fronteira entre Hannah e Lena tornou-se tão tênue que cada fala, decisão ou imperfeição física da personagem parecia ser tomada como uma confissão autobiográfica. Fora das telas, não a ajudava o fato de que a atriz era praticamente viciada em se expressar, frequentemente respondendo a críticas nas redes sociais.
Um momento decisivo levou Dunham a um afastamento da vida pública: em 2017, Dunham e Jenni Konner, sua parceira criativa com quem tinha uma amizade silenciosamente turbulenta, saíram em defesa de um roteirista de Girls que fora acusado de agressão sexual, dizendo acreditar em sua inocência com base no que sabiam sobre ele. A declaração provocou um grande furor, sobretudo pela contradição com o posicionamento público de Dunham em defesa de vítimas de violência sexual. Ela se desculpou pelo ocorrido, e, no livro, alega que estava dopada de remédios no momento em que ela e a sócia decidiram escrever a declaração. Nos anos seguintes, ela se distanciou um pouco do olhar público e se permitiu enfrentar de frente os problemas de saúde e dependência química, submetendo-se à reabilitação. O livro pouco aborda o que veio depois disso: a realização de dois longas, a mudança para Londres e o casamento com o músico Luis Felber que inspiraram a série Too Much, lançada em 2025 pela Netflix.
Este ano, os eventos de lançamento de sua autobiografia revelaram uma versão mais madura e calejada de Dunham, aos 40, mas vale notar que o olhar crítico do público sobre ela parece ter se abrandado também. Alguns anos atrás, todo mundo parecia estar revendo Girls e adorando — a série, de fato, envelheceu muito bem, e diversos ensaístas e críticos culturais saíram em defesa do programa e de sua criadora, como alguém incompreendida.
É curioso que Dunham, sempre julgada por falar demais de si, tenha recorrido a um livro de memórias para desmontar velhas narrativas sobre si própria e construir outras novas. A contradição, certamente, não passa despercebida por ela. E nem pelo leitor.















