Um cardeal sem medo da arte

Um cardeal sem medo da arte

Por mais improvável que pareça, uma das figuras mais interessantes do métier artístico global é um cardeal do Vaticano

Tive a honra de conversar (e me emocionar diversas vezes) com o cardeal José Tolentino de Mendonça, poeta, ensaísta e prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano (equivalente a um ministério de Estado), responsável pela mudança do enfoque do Vaticano em relação às artes, pela revolução na representação do país na Bienal de Veneza, dentre várias outras iniciativas. 

Em uma hora de conversa, o cardeal contou sobre seu novo projeto: a ART CUT, Trienal de Arte das Universidades Católicas, e a relação dos últimos papas com a arte contemporânea. 

Com o tema Exercícios de empatia, a ART CUT’26 teve sua primeira mostra inaugurada na PUC-Rio, na semana passada, e visa conectar universidades de sete países, estimulando um diálogo entre fé, cultura, ciência e sociedade. 

Não é por acaso que a primeira etapa da Trienal acontece no Rio: Tolentino foi professor por um período na PUC-Rio e guarda aquela época com enorme carinho. 

“É uma grande alegria que a Trienal possa ser inaugurada no Brasil, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, porque o Brasil é uma grande escola de empatia. Começarmos pelo Brasil é também uma homenagem ao País e uma demonstração de confiança nessa grande qualidade, nessa grande energia espiritual que o Brasil possui como cultura. Aprendi muito e continuo aprendendo muito com o Brasil e com a vossa cultura. O Rio não é apenas a cidade maravilhosa. É a cultura maravilhosa.”

Com diversos livros publicados de filosofia e poesia, Tolentino acabou de lançar no País a coletânea de poemas Os enigmas singulares. 

Sem medo de diferenças ou de temas polêmicos, Tolentino tem sido procurado por grandes artistas contemporâneos e curadores, como Patti Smith, Maurizio Cattelan e Hans-Ulrich Obrist, entre muitos outros. A aproximação entre a Igreja e a arte contemporânea pressupõe, para o cardeal Tolentino, uma abertura ao desconforto, à crítica e até à ironia. 

Durante séculos, a Igreja foi uma das maiores patrocinadoras das artes, desde que circunscritas a temas bíblicos. A arte herege era punida em tribunais religiosos e confiscada, como os casos famosos de Veronese, Caravaggio e Goya. 

Ainda que setores mais conservadores da Igreja ainda mantenham a visão de séculos atrás e enxerguem determinadas linguagens artísticas como profanas, os últimos três Papas viam na arte um papel fundamental para o diálogo, que Tolentino define como “raramente confortável” e que não deve exigir concordância. 

“Esta abertura existe porque a Igreja acredita na potencialidade humana do diálogo. O diálogo supõe necessariamente o reconhecimento e a aceitação da diferença. O seu objetivo não é a fusão ou a diluição das questões e das identidades, mas essa capacidade de escutar na diferença. Isso é muito importante.”

Em 2024, ao receber artistas na Capela Sistina, o papa Francisco chamou a atenção por exaltar a importância da ironia. Tolentino recorda o episódio para defender uma Igreja capaz de ouvir aquilo que a provoca. Nesse caso, a ironia carrega a possibilidade de não nos levarmos a sério, uma postura que nos fecha a qualquer crítica ou reflexão que não seja cômoda.

Para Tolentino, o encontro envolve tensão e a coragem de ouvir aquilo que desafia nossa própria interpretação do mundo. Ainda que haja preconceito de parte a parte, quando se baixa a guarda e se aceita conversar, existe a possibilidade do encontro, sem um objetivo de catequização. 

A Trienal de Arte das Universidades Católicas quer permitir que a criação contemporânea conserve sua liberdade e ajude a própria Igreja a olhar o mundo, e a si mesma, de outra maneira.

Para Tolentino, as universidades têm uma responsabilidade particular nesse processo. A própria palavra “universidade” carrega a ideia da convivência entre conhecimentos e perspectivas diferentes.

“Nenhuma ciência, por si mesma, integra ou descreve a verdade por completo. Nós precisamos de todas as ciências. A universidade é essa consciência de que somente a multiplicidade dos saberes, das visões e dos conhecimentos pode nos dar uma visão integral e amadurecida, capaz de contribuir decisivamente para o bem comum.” 

Não é à toa que a empatia tem suas origens no campo da estética. “No fundo, a arte é uma facilitadora. A arte nos aproxima com um grau de intimidade que outras formas de linguagem têm mais dificuldade de conseguir, porque ela é, ao mesmo tempo, ardentemente pessoal e amplamente universal. Aquilo que a obra de arte transporta é, no fundo, um espelho onde todos nós podemos nos ver refletidos.”

Em um dos momentos mais bonitos da conversa, Tolentino explica que não acredita em uma separação entre criação artística e experiência espiritual. Para ele, o sentido da arte está no que permanece invisível, silencioso ou por descobrir.

“A arte nos coloca sempre num limiar, numa soleira, num umbral. A pintura não está apenas interessada na imagem, mas em fazer com que a imagem nos leve a olhar aquilo que está para além dela. Assim como a música não está apenas interessada no som, mas também no silêncio. As artes, em geral, trabalham o invisível e o espiritual.”

Ao privilegiar o processo, a arte proporciona uma espécie de peregrinação interior.

“A arte é procura. Às vezes, não é tão importante o ponto de chegada quanto toda a procura, toda a pesquisa que o artista realizou para chegar a uma primeira resposta, que pode até ser apenas uma hipótese de trabalho. O importante é a pesquisa. Penso que esse é um grande enriquecimento que a arte nos dá, porque faz de todos nós caminhantes. A arte nos diz que tudo é caminho, tudo pode ser estrada, tudo pode se tornar uma peregrinação interior. Isso é muito precioso.” E conclui com uma bela analogia:

 “Os artistas caminham no mundo como caracóis. As pessoas vinculadas ao mundo caminham muito depressa, vertiginosamente. Os artistas caminham lentamente porque nos oferecem uma pedagogia da lentidão, do silêncio, da escuta e da relação. Isso é um patrimônio de valores, é uma educação de que todos precisamos. Nós não precisamos apenas de saberes. Precisamos saber ser. E esse é o lugar da arte.”

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