O espírito livre e inventivo dos anos 1990 é tema de exposição em Londres

O espírito livre e inventivo dos anos 1990 é tema de exposição em Londres

Com curadoria de Edward Enninful, “The 90s: Art and Fashion” investiga as conexões criativas da última década offline

“Ela permanecia crua, instável e aberta à reinvenção, com um senso subjacente de brincadeira.” Edward Enninful descreve esse espírito de uma Londres da década de 1990, efervescente, experimental e, sobretudo, tomada por um desejo de expansão criativa, uma atmosfera um tanto inapreensível para quem não viveu essa era, a última década offline. 

“Não foi definido por um único momento, mas por um impulso compartilhado — uma recusa de hierarquias e um desejo de ampliar quem poderia participar da produção cultural,” explica. No caso de Enninful, ele não era apenas uma testemunha ocular, mas um participante ativo desse movimento: aos 18 anos, tornou-se o diretor de moda da revista i-D, então um veículo independente que buscava, no olhar dessa juventude, uma atitude inocente, disruptiva e cheia de otimismo. 

“Naquele momento, as condições de produção de imagens também estavam evoluindo. Avanços nas áreas editorial, fotográfica e de circulação de mídia permitiram que a moda e a arte transitassem com maior velocidade e imediatismo.” Foi nesse contexto de comportamento explosivo que a nova exposição da Tate Britain, que inaugura em outubro, busca investigar a energia de um tempo que já não volta. E ninguém melhor do que ele para evocar essas memórias.

Apesar da possível nostalgia inerente ao sentimento de uma época tão prolífica e livre, não é exatamente essa sensação que The 90s: Art and Fashion procura reconstituir. Pelo contrário: como diz Enninful, trata-se de uma forma de reflexão crítica. 

Alexander McQueen, outono/inverno 1998

Em tempos anêmicos em diversas áreas criativas, a mostra é essencial para lembrar ao público quais eram as simples ferramentas que estimularam e permitiram que tantas irrupções acontecessem em uma janela de apenas dez anos. De acordo com Enninful, foi uma década moldada por mudanças políticas, tecnológicas e sociais, que redefiniram a forma como a arte, a moda e a imagem operavam na esfera pública. 

“Para nós que trabalhávamos nesse ambiente, esses desdobramentos não eram teóricos. Eles influenciavam a maneira como o trabalho era feito e compreendido,” diz. Essa permeabilidade, por sua vez, permitiu que nomes da moda, da arte e da fotografia, vindos da classe trabalhadora, pudessem se destacar por seu talento inaudito. 

Assim, Alexander McQueen, John Galliano e Hussein Chalayan compartilham o espaço da exposição com Corinne Day, Nigel Shafran e Juergen Teller e com os Young British Artists (YBAs), entre os quais estão Damien Hirst — e seus tubarões no formol — e Tracey Emin. 

Na realidade, era justamente o encontro entre esses jovens que tornava o movimento ainda mais potente. “Em Londres, essa circulação era acelerada pela proximidade: fotógrafos, stylists, artistas e designers atuavam em círculos sociais e redes criativas que se sobrepunham. Uma sessão de fotos matinal com Kate Moss e Nick Knight podia terminar em uma boate no Soho à noite, onde Alexander McQueen frequentemente estava presente. Seu trabalho, visível nas vitrines da icônica boutique de moda Browns, confrontava questões de pertencimento com uma intensidade rara,” lembra.

A exposição, sob curadoria de Enninful, reúne cerca de 70 artistas, designers e fotógrafos para investigar o surgimento dessa geração, germinada no fim da década de 1960, mas que cresceu embebida em uma cena cultural que irrigava com amplitude a moda — para eles, a roupa não era sinônimo de produto — e a transformava em uma ferramenta de expressão. 

Obra "Attitude" de Barbara Walker (1998)

As ruas, por sua vez, sempre foram a passarela da moda britânica. Por essa razão, essa juventude não buscava necessariamente no alto luxo, nem no que vinha de Paris ou Milão, suas referências. Era justamente a experiência da vida noturna e das cenas do cotidiano que permitia a esses personagens transformar a moda — e a arte, seguindo o mesmo ritmo — de maneira revolucionária.

Tanto Galliano, que surgiu em 1984, quanto McQueen e Chalayan, que ganharam projeção nos anos 1990, extraíam de seus próprios âmagos essa via de experimentação, seja utilizando tecidos de estofados (por serem baratos) para fazer vestidos, seja criando peças inspiradas na estrutura de fuselagens de avião, para revelar uma sensação crua de liberdade. 

Havia uma profunda busca por uma expressão da mais pura e límpida individualidade, que dava às suas coleções a força para se transformarem em algo autêntico e memorável. Nada – nada mesmo – era exatamente prosaico.

Segundo Celeste McEvoy, curadora assistente de arte britânica contemporânea da Tate Britain, a exposição reúne peças realmente emblemáticas da história da moda — desde a complexa homenagem de Vivienne Westwood à identidade britânica em sua coleção Anglomania, de 1993, até o vestido da coleção de graduação de Stella McCartney usado por Kate Moss, passando pela icônica saia-mesa transformável de Hussein Chalayan. 

Mas ela acrescenta: “Um dos destaques para mim é a sala da exposição dedicada à vida noturna e à cultura de clubes. Espere ver fotografias que capturam as cenas de drum and bass, jungle e rave, registrando a energia (e, por vezes, o hedonismo) dos ambientes musicais e das casas noturnas por todo o Reino Unido, bem como a moda rave típica dos anos 90.” 

Para McEvoy, será um momento empolgante da exposição para refletir sobre esses marcos da subcultura britânica, apresentando muitos fotógrafos icônicos da década, incluindo Vinca Peterson, Eddie Otchere e Normski. E são essas obras, entre as mais de 100 fotografias, pinturas, esculturas e peças de vestuário reunidas pela exposição, que ajudam a reavaliar um dos momentos mais transformadores da arte britânica.

Enninful ainda destaca que, além dos nomes que se tornaram indeléveis na história da moda, da arte e da fotografia, outros impactos foram substanciais para os tempos atuais, entre eles o colapso das fronteiras entre a cultura erudita e a popular, a politização da moda e da imagem, e a emergência da diversidade como uma força geradora, e não apenas corretiva. 

“No momento atual, muitas das questões que definiram aquela década permanecem sem solução, particularmente as de visibilidade, acesso e poder. Esta exposição reúne diversas perspectivas para reconsiderar aquele período, não como um momento histórico encerrado, mas como um ponto de referência contínuo.”

Para ele, os anos 1990 não resolveram essas tensões, mas a década demonstrou a capacidade da cultura de desafiar, romper padrões e reimaginar. “Esse é o legado com o qual a exposição busca dialogar: não como uma narrativa fixa, mas como uma narrativa aberta e em constante evolução.”

The 90s: Art and Fashion
Em cartaz na Tate Britain até 14 de fevereiro de 2027. 

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