Esta é a história de um encontro que tinha tudo para não acontecer.
Hannah Rose Dalton vinha de um universo privilegiado e conservador, estudou em uma escola só para meninas e tinha um estilo super preppy. Steven Raj Bhaskaran cresceu na Guiana em uma família mórmon e, quando se mudou para o Canadá, morava com a mãe em um prédio de habitação popular, num lugar “bastante barra pesada.”
Eles se conheceram estudando moda no LaSalle College, em Montreal, e não gostaram um do outro de cara. “Viemos de mundos completamente diferentes,” diz Steven. “Quando conheci Hannah, pensei: ‘não vou andar com essa pessoa’.”
Mas ele não sabia que Hannah se sentia extremamente limitada por trás dos cabelos loiros e longos e da cara limpa, quase angelical. “Há dez anos, nós não éramos assim. Tínhamos muito medo de ser quem realmente éramos e de expressar nossa verdade,” diz.
Foi conversando que eles descobriram que compartilhavam da mesma sensação de não pertencer, com questões profundas relacionadas à própria identidade. “Hannah tinha medo de explorar um outro lado da feminilidade. Eu queria explorar a feminilidade, mas não conseguia porque estava preso às limitações da minha cultura. Nós ajudamos um ao outro a entender que não importa de onde você vem, mas para onde quer ir. E nós dois queríamos ir para o mesmo lugar,” disse Steven em uma entrevista ao NYT.
Os dois então viraram parceiros de vida e de trabalho e foram all in nas experimentações estéticas: rasparam o cabelo, as sobrancelhas, começaram a criar maquiagens extremas, usar próteses e lentes de contato, transformando seus corpos em um experimento radical. Uma das criações que eu achei mais interessantes são o skin shoes, aqueles sapatos altíssimos que parecem continuação do próprio corpo (e que custam US$ 10 mil!!). Essas imagens viralizaram e ajudaram a transformar os dois num fenômeno de internet.
Assim surgiu o Matières Fécales (ou Fecal Matter ou, em bom português, matéria fecal). Eles passaram alguns anos entre Londres, Nova York e Montreal, morando clandestinamente em um clube underground, fazendo roupas para drag queens, trabalhando como DJs e desfilando para o estilista Rick Owens. Foi com o dinheiro que ganhavam trabalhando para Owens que eles decidiram ir para Paris e abrir um pequeno ateliê.
Foi então que entraram no radar de Adrian Joffe, marido de Rei Kawakubo, presidente da Comme Des Garçons e responsável pelo programa de desenvolvimento de marcas da Dover Street Market, que oferece mentoria, estrutura e apoio financeiro a jovens designers. Joffe trouxe a Matières Fécales para o programa e a dupla apresentou sua primeira coleção em Paris, em 2025.
A história deste encontro é engraçada. Em novembro de 2023, Hannah e Steven estavam abrindo como DJs um show da Madonna e ela usava um dos jeans rasgados da marca. Joffe estava nos bastidores, junto com John Galliano e Jean Paul Gaultier. Joffe perguntou onde eles produziam aqueles jeans. A resposta: “na cozinha de casa.”
A primeira coleção, chamada The Other, é sobre viver de maneira mais livre e traduz como Hannah e Steven se sentiam antes de se conhecerem. “Eu não conseguia me conectar com ninguém, me sentia um alienígena. Me sentia The Other, o outro. Foi daí que nasceu nosso desejo de expressar alguma coisa que fosse além do humano. Nossa ligação com alienígenas vem dessa vontade de encontrar pertencimento em algum outro lugar,” diz ele.
“É isso que somos, da maneira mais bonita e poética possível. É isso que queremos que nossa marca faça: dê às pessoas coragem para encontrar dentro de si algo que talvez tenham medo de admitir ou libertar.”
Com o apoio da Dover Street Market, eles têm criado coleções que mantém seu DNA distópico e político, mas com uma execução no nível da alta costura.
Desde então, a marca já vestiu artistas como Lady Gaga, Demi Moore, FKA Twigs e Zendaya e fez seu primeiro desfile de noiva para a modelo Gabriette.
E em seu novo desfile, mostrado no primeiro dia da semana de moda de Paris, ninguém menos que Rihanna chegou para se sentar na primeira fila, o que só comprova o buzo em torno da marca.
O mais legal dessa história é que eles não negociaram nem suavizaram seu universo para entrar no mainstream; o sistema que abriu espaço para o mundo deles.
Das margens ao centro da conversa, a Matières Fécales está construindo sua história e chamando cada vez mais atenção dentro do luxo. Como diz Hannah, “você pode amar Matières Fécales e também ser completamente apaixonada por Chanel.”














