O trabalho de Fause Haten sempre foi escultórico e performático. Primeiro, construindo a roupa em moulage sobre o manequim de ateliê; depois, passando pelas obras em barro, têxteis e porcelana e até pela transformação do próprio corpo, em uma trajetória que aproxima moda e artes plásticas e cênicas.
Unindo todas essas vivências, ele abre neste sábado a exposição DITO! Aquilo que Não Foi. São 28 obras criadas a partir de roupas vintage do seu acervo pessoal ou garimpadas em brechós em São Paulo e no Rio de Janeiro. As peças inspiram e são suporte para frases que já ficaram presas na garganta de muita gente — inclusive do próprio artista.
Ele conta que este é um trabalho sobre dignidade, gestado a partir de incômodos. “Acho que isso foi o gatilho,” disse. São frases curtas, pensamentos, confissões e afirmações que evocam aquilo que permaneceu silenciado ou não encontrou forma de ser verbalizado. Por ele, em princípio, mas também por qualquer pessoa que se sinta representada pelo que está escrito nas roupas.

Para o artista e estilista, o mais emblemático é a frase “Eu não sou propriedade sua,” que estampa o vestido bordado em rafia da década de sessenta com pintura a óleo batizado de Clara em Seu Baile de Debutante. Segundo Fause, reverbera a angústia de viver em um mundo de decisões muitas vezes tomadas pelo outro.
Dos primeiros vestidos costurados aos 16 anos aos desfiles internacionais da grife que levava seu nome, passando pelos palcos como ator, cantor e roteirista — Fause sempre construiu a própria obra a partir de si mesmo, ainda que envolto em metáforas. A mostra, disse, é seu trabalho mais transparente. "E isso foi surpreendente para mim, mexeu muito comigo, ainda que todos os anteriores tivessem vivências felizes ou infelizes."
Emolduradas em caixas acrílicas, as obras são o resultado de um processo iniciado em 2022, quando Fause começou a pintar a óleo sobre o popular algodão cru esticado. “Comecei a imaginar como eu poderia tridimensionalizar a tela. Pensei em fazer formas ou esticar roupas sobre ela até entender, no final de 2025, que o caminho era pintar a própria roupa, o material com que tenho mais intimidade,” disse. “Tudo começou com um terno. E aí fui pegando dentro de mim todos os incômodos.”
O resultado flerta com a dramaturgia — já que cada obra tem nome e narrativa — e, ainda, com a performance. “Cada roupa carrega marcas do corpo que a vestiu, mas criei um personagem que dá origem a outro corpo; e se o visitante compartilha do mesmo incômodo, a roupa passa a ocupar o seu corpo simbolicamente,” disse. O curador Daniel Rangel acredita que essa exposição é o trabalho mais contemporâneo do artista e estilista, no sentido de que a plasticidade não é o elemento mais importante, mas sim o que é movimentado pelas obras.

“Quando Fause decide encarar os vestidos e as peças de roupa como esculturas e instalações, incorporando também a palavra como elemento constitutivo da obra, ele passa a operar em um campo expandido,” disse Rangel. “As roupas não funcionam apenas como suporte material. Elas carregam informações sobre tempo, classe, desejo, comportamento e memória, que são ativadas e tensionadas pelas imagens e pelas frases presentes nos trabalhos.”
Para além da abordagem particular — e explosiva ao mesmo tempo —, DITO! também é uma exposição para quem ama moda. Estão lá, por exemplo, um conjunto safári e um vestido infantil dos anos 1970 e até uma blusa de Oleg Cassini, o estilista francês naturalizado norte-americano que ficou famoso por assinar as roupas de Jacqueline Kennedy quando ela era primeira-dama, na década de 1960.

Um dos nomes mais importantes da moda brasileira a partir dos anos 1990, Fause Haten sempre teve como identidade os volumes, as construções elaboradas e tecidos preciosos ao lado de experimentações com a arte e a presença cênica em seus desfiles no Phytoervas Fashion e, depois, no São Paulo Fashion Week. A projeção internacional veio em 1999, por meio do perfume Giorgio Beverly Hills, para apresentar a coleção na Rodeo Drive, em Los Angeles. Em seguida, fez quatro edições da New York Fashion Week. Em 2002, passou para a Semana de Moda de Milão, onde desfilou por dois anos.
“A essa altura, a carreira internacional parecia apontar para uma mudança de país. Ele preferiu permanecer aqui, desenvolveu uma linha de joias e criou a Haten.F, uma linha de streetwear jovem em parceria com a Riachuelo, enquanto estudava artes cênicas. A grande virada aconteceu em 2008. Seguindo um movimento crescente na indústria nacional, vendeu sua marca para o grupo I’M — Identidade Moda em um processo que lhe rendeu prejuízo financeiro e autoral.
No ano seguinte, já formado em teatro pela Escola Célia Helena, passou a estudar também dança, interpretação, canto lírico e preparação vocal. Aos poucos, o estilista foi se mesclando ao artista, gerando o primeiro espetáculo, A Feia Lulu, em 2014.
Hoje, sua atuação múltipla, que inclui pintura, escultura, dramaturgia, performance e moda, pode ser conferida de perto no espaço expositivo Fonte, em Pinheiros,

DITO! Aquilo que Não Foi
Em cartaz até 12 de setembro
Rua Mourato Coelho, 751, Pinheiros, São Paulo















