Ao longo de três décadas, Virginie Viard foi o braço direito de Karl Lagerfeld, o kaiser da moda. Com a morte dele, em 2019, foi indicada como sua sucessora. Apesar da postura discreta da maison indicar que sempre esteve tudo bem, os bastidores eram diferentes.
E quem revela é a própria Viard que agora tem seu lado da história.
Lançado nesta quinta-feira, o livro Un regard: Une vie chez Chanel (Um olhar: Uma vida na Chanel, em tradução livre), traz o backstage de uma maison que raramente deixava escapar o que acontecia por trás das cortinas. Isso inclui a saída repentina de Viard da marca, em junho de 2024.
O lançamento acontece de maneira estratégica durante a semana de moda de Paris e detalha a melancolia vivida por uma mulher assombrada pelo medo de desaparecer da indústria.
A melancolia da vida pós-Chanel e o luto eterno por Karl Lagerfeld.
Segundo artigo publicado pela Vanity Fair, o livro, que à primeira vista parece revelar um impulso narcisista, também expõe a profundidade da ferida provocada pela Chanel.
A revolta se intensificou quando Viard, um ano depois de deixar o cargo, se deparou com um artigo que descrevia a história da maison em três momentos: o início com Gabrielle Chanel, seguido pelo reinado de Lagerfeld e, então, pela chegada do futuro com Matthieu Blazy. O período comandado por Viard foi simplificado a uma menção ao “intervalo” — palavra que a deixou arrasada.
“Estou relendo. O intervalo. O momento em que o público se levanta, vai ao banheiro, pede bebidas e conversa no corredor. O momento em que nada realmente acontece. A calmaria entre dois acontecimentos importantes.”

O livro é dividido em cinco atos autobiográficos. A esse “intervalo” é dedicado o capítulo “Querido Karl,” com 13 páginas.
A obra é também uma tentativa de garantir seu lugar na história da maison. Se não foi por bem, que seja pela memória.
“Aquelas coleções eram eu. Aquele trabalho era eu. Aquele jeito de estar na Chanel — livre, intransigente, fiel ao espírito da maison, mas também abrindo-a para o mundo — era eu.”
A história começa em 5 de junho de 2024 — o dia em que foi desligada da maison, um mês após a apresentação da coleção Cruise em Marselha ter recebido críticas duras da mídia especializada.

A demissão aconteceu durante um almoço com um dos donos da Chanel, cujo nome não foi revelado. “Não vai ser fácil,” um deles disse à mesa, em uma voz baixa, e quase de desculpas. “Eu queria ser eu a lhe contar...”. E, assim, tudo termina.
No dia seguinte, seus pertences no escritório da grife já haviam sido encaixotados e enviados até sua casa. Três semanas depois, a coleção de alta-costura da Chanel foi apresentada no Palais Garnier, como se nada tivesse acontecido, assinado pelo time interno.
No livro, “não há uma palavra sobre as críticas às suas coleções, nem sobre as condições financeiras ou sua saída,” conta a publicação, levantando a hipótese de que isso se deva aos acordos de confidencialidade que ela possa ter sido obrigada a assinar — algo sugerido pelo “extremo cuidado” com que menciona a família Wertheimer, proprietária da Chanel, e Bruno Pavlovsky, presidente da casa.
A parte mais interessante, segundo a Vanity Fair, é quando ela narra sua relação com o kaiser — uma parceria que durou 30 anos.
A discrição mantida na Rue Cambon é descortinada pelas excentricidades de um gênio: como preparava suas pequenas porções de proteína durante sua dieta extrema, quando perdeu mais de 40 quilos em um ano; ou como pedia vinho branco para acompanhar suas salsichas de Frankfurt, mesmo que bebesse apenas “três gotas,” lembra.
Ela também descreve os últimos meses de vida do estilista, quando já estava debilitado e ela o visitava no hospital.
A rotina de trabalho é retratada com menos detalhes. Viard se apresenta como indispensável a Lagerfeld, sua “mão direita” e seu “braço esquerdo,” a quem cabia a missão de traduzir as ideias do mestre para os ateliês. O que ela descreve como uma “dupla criativa incrível,” baseada em “admiração mútua” e em uma forma de “dependência não reconhecida.”
Quando Karl morreu, um vazio se instalou: “Eu provavelmente deveria ter encontrado um parceiro, alguém com quem conversar,” disse. “Mas eu não tinha ninguém, enquanto Karl tinha a mim.”

A relação é descrita com humor, amor e rancor. ela sabia exatamente como irritá-lo aparecendo vestida de Balenciaga — mas revela mágoas guardadas. “Como explicar que se dê tanto a alguém que tantas vezes nos machuca?”
As comparações entre os dois se tornam cada vez mais cruéis. Enquanto ele traduzia em poucos traços suas criações, ela admite que não sabe desenhar - em vez disso, trabalha com colagens. Enquanto Lagerfeld se transformou em uma persona pública e mítica, Viard se refugiou no silêncio: recusou entrevistas e teve dificuldade para articular sua visão.
Enquanto estilistas se tornavam celebridades, com orçamentos estratosféricos, ela se recusava a se colocar em primeiro plano e, com isso, não conseguia convencer os outros de seu valor.
Viard é uma pessoa de gostos simples. No início do livro, fala do amor pela rotina, por frequentar os mesmos restaurantes, ouvir as mesmas músicas. Uma vida extraordinariamente simples, onde o excepcional se torna ordinário.
Ela se lembra da dor que sentia quando outros levavam o crédito pelo trabalho para o qual havia contribuído tanto, e quantas vezes chorou no provador quando Amanda Harlech, uma aristocrata britânica próxima de Lagerfeld, levava os créditos pela coleção, ao apresentá-la aos jornalistas.
Entre decepções e certa melancolia, fica clara a falta que Viard sente de Lagerfeld.
“Eu gostaria de encostar a cabeça no seu ombro como costumava fazer, segurar sua mão e, ao seu lado, relembrar,” conclui, antes de assinar: “Envio a você todo o meu amor, de todo o coração, sua Virginie.”
Um luto eterno.














