
Lucas Recchia domou o vidro. E ele só tem 33 anos
Descubra quem é o catarinense que está no radar global
Poucos designers brasileiros tiveram uma ascensão tão rápida no cenário internacional quanto o catarinense Lucas Recchia.
Em apenas sete anos de carreira, ele passou de um estudante com alguns móveis experimentais para um criativo à frente de um estúdio celebrado no circuito global do design autoral colecionável.
Hoje, suas peças estão em galerias na Europa, nos Estados Unidos, no Oriente Médio e na Austrália — um percurso pautado por experimentação constante com materiais e uma boa dose de ousadia.

Tudo começou em 2019, quando ele cursava Arquitetura e Urbanismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie — depois de haver se formado em Administração de Empresas e estudado Publicidade e Propaganda.
Durante as aulas, Lucas se interessou profundamente pelo trabalho artesanal em vidro e resolveu experimentar em pequena escala. Foi daí que surgiu a mesa Morfa 01, seu primeiro sucesso.
Com olhar criativo e uma inclinação para o empreendedorismo, percebeu que tinha um bom móvel para as marcas de design brasileiras.
O impulso na carreira veio quando o arquiteto Marcelo Salum, seu conterrâneo, incluiu a peça em seu ambiente na CASACOR São Paulo daquele ano.
A visibilidade abriu caminho para que o designer mostrasse o trabalho à empresária Sonia Diniz, à frente da Firma Casa. Encantada com a delicadeza da criação, ela resolveu apostar no jovem e encomendou uma coleção autoral. Lucas desenvolveu então oito novos móveis para a marca.
Em 2021, concluiu a graduação e começou a estruturar seu estúdio de design, já considerando a atuação internacional.
“Eu sabia que as peças eram caras para produzir. Então, entendi que precisava expandir para o exterior para conseguir vender para um mercado mais amplo,” diz.
Foi nesse contexto que decidiu apresentar seu trabalho a uma das vozes mais influentes do design contemporâneo: a curadora de design e galerista italiana Rossana Orlandi.
Enviou um e-mail com portfólio e uma breve apresentação, sem muita expectativa de retorno. Duas semanas depois, veio a resposta: “Seja bem-vindo à família Rossana Orlandi,” escreveu ela.
A sua galeria, em Milão, é um dos principais destinos de colecionadores de design e parada obrigatória durante a Semana de Design, que acontece em paralelo ao Salão do Móvel.
“Lucas tem uma habilidade extraordinária de trabalhar materiais de forma sofisticada, elegante e refinada. Seu trabalho carrega um estilo extremamente pessoal,” disse Rossana, chamada por muitos de “papisa do design.”

Depois de Milão, galeristas em Dubai, Rússia e Austrália se interessaram por seu trabalho e passaram a representá-lo.
Lucas também já vende nos Estados Unidos e na França.
“O importante não é só estar nesses lugares, mas criar relações duradouras com essas galerias. É nisso que trabalhamos diariamente,” disse o designer.
Essa expansão, no entanto, exige presença constante. Aos 33 anos, ele mantém o ritmo de uma agenda intensa de viagens. Em 2025, participou de mais de sete feiras internacionais e realizou exposições individuais em Paris e Nova York.
Os resultados, no entanto, valem o esforço. Lucas já desenvolveu peças sob medida para lojas e flagships de grifes de moda como Louis Vuitton, Dior e Off-White.
Seus móveis também integraram projetos de profissionais de destaque na arquitetura e no design de interiores, como Sig Bergamin e Murilo Lomas, o escritório Triptyque, o Studiomk27 e a americana Kelly Wearstler.
Desde o lançamento, inclusive, as peças da série Morfa — que seguem em produção — tiveram valorização de cerca de 600%, acompanhando tanto os custos de manufatura quanto o posicionamento no mercado internacional.

Nos últimos anos, o designer também vem ampliando sua pesquisa de materiais — afinal, a experimentação é a base de seu processo criativo.
Com a ajuda de Renata Malenza, à frente da Brasigran, está explorando o potencial das pedras naturais brasileiras, buscando novas aplicações além de revestimentos. “Eu procurei a empresa porque já tinha interesse em fazer esse trabalho com pedras,” ele disse.
Renata viu nessa aproximação uma oportunidade de expandir o uso das rochas que comercializa, algo que já desejava há tempos. “Esse trabalho de design é um sonho meu,” a empresária disse.
A colaboração abriu espaço para inovações. Uma pedra rosa, por exemplo, com pouco apelo comercial no exterior, deu origem a uma mesa desenvolvida por Recchia, em uma coleção chamada Janelas.
“Eles não viam como usar como revestimento. Mas eu achei que poderia criar móveis a partir dela,” ele disse.
Mas não é um processo simples: para chegarem ao desenho de Lucas, as pedras são esculpidas industrialmente e manualmente. “É desafiador. As peças são feitas 60% em máquinas e 40% com acabamento artesanal,” disse Renata.
De acordo com ela, depois de Recchia, outros designers se interessaram pelo trabalho com pedra natural. “Eu agrego valor ao trabalho dele. E ele ao meu. É uma parceria muito boa,” disse.

Inspirado por artistas e também pelos irmãos Campana, o designer vem trabalhando com o bronze, matéria-prima que hoje divide espaço com o vidro em sua produção.
“Criar uma peça de bronze é demorado, nós levamos até um ano. São mais de 20 pessoas envolvidas na produção artesanal. Mas você nunca será um bom designer se não entender como esse processo todo funciona,” ele disse.
Lucas tem aplicado o bronze, inclusive, na série Morfa, propondo diferentes acabamentos aos móveis que são sucesso de venda.
Também criou uma série de espelhos, mesas de apoio e centros de mesa a partir de vidro e bronze — itens sofisticados, delicados e leves que parecem obras de arte.
Na próxima edição da SP-Arte, de 8 a 12 de abril de 2027, Recchia lança sua primeira coleção de luminárias feitas em bronze e vidro — um desdobramento natural de seu trabalho.
“Tenho um interesse particular pela forma como a luz interage com o bronze. O reflexo permite esconder a fonte e o que aparece é a projeção — não a luz em si. Isso cria uma certa curiosidade em torno da peça,” ele diz.


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