O Brasil tem mais pets do que crianças.
Só entre cães e gatos, são cerca de 92 milhões de animais — segundo estimativas do Instituto Pet Brasil — versus aproximadamente 40 milhões de crianças de até 14 anos, conforme o Censo 2022 do IBGE. E enquanto o número médio de pessoas por residência caiu de 3,6 para 2,8 entre o início dos anos 2000 e 2022, a média de animais de estimação por lar chegou a 1,8.
Os brasileiros estão tendo menos filhos e criando mais bichos, e essa matemática diz muito sobre como a família brasileira tem se reorganizado nas últimas décadas.
O mercado está atento a essa mudança e tem reagido com inovação e doses de ousadia. Em 2024, o setor pet movimentou R$ 75,4 bilhões no País, crescimento de 9,6% em relação ao ano anterior, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet). Para 2026, a projeção é superar R$ 80 bilhões. Acontece que para chegar lá, não basta vender ração: é preciso oferecer planos de saúde, resorts, suplementos, coleiras com inteligência artificial, linhas de beleza voltadas à estética animal e dietas formuladas por nutricionistas veterinários.
Esse aquecimento encontra e alimenta o desejo de uma parcela crescente de humanos de que seus pets sejam, cada vez mais, parte plena de seus afetos. Uma pesquisa da Serasa em parceria com o Opinion Box, realizada em setembro de 2025 com mais de 1.600 entrevistados, mostrou que 72% dos tutores brasileiros consideram seus pets verdadeiros filhos. Para esse grupo — majoritário —, não existe teto de gasto quando o assunto é qualidade de vida do bicho. E assim como se deu com a nossa saúde e nosso bem-estar nas últimas décadas, especialmente no pós-pandemia, a demanda por longevidade, prevenção e experiências premium chegou aos animais de estimação com fôlego total.
Não é difícil se reconhecer nesse grupo. A jornalista que vos escreve tem um westie terrier de três anos com plano de saúde (R$94,90 por mês), matriculado em creche duas vezes por semana (R$ 848 ao mês) e que teve resultados surpreendentes para ansiedade de separação com acupuntura (R$ 200 a sessão). Sim, acupuntura. Não há julgamento possível quando seu filho "bichológico" (o TikTok explica) para de lamber as patas compulsivamente e começa a dormir tranquilo.

E se eles vivessem mais?
Na vanguarda científica está o Dog Aging Project, liderado por Matt Kaeberlein, biogerontologista da Universidade de Washington e cofundador e CEO da empresa de tecnologia de longevidade Optispan. O projeto parte de uma premissa provocadora: cães e humanos compartilham tanto da biologia do envelhecimento que estudar um pode iluminar o outro.
Por isso, mais de 52 mil animais estão inscritos em um estudo observacional conduzido em ambiente doméstico, com seus tutores monitorando dados como peso, idade, dieta e comportamento. Mas o projeto vai além da observação: em ensaios clínicos, a equipe já testa a rapamicina, medicamento aprovado para humanos em transplantes de órgãos, como potencial droga de longevidade para cães. Os resultados da fase 1 mostraram melhora significativa na função cardíaca dos animais, sem efeitos colaterais. Se der certo nos cães, o passo seguinte é óbvio.
Os avanços na compreensão do envelhecimento canino andam de mãos dadas com produtos e tecnologias voltados à longevidade. Uma das empresas que melhor ilustra essa convergência é a Fi, startup norte-americana que fabrica uma coleira inteligente para cães. Além do rastreamento por GPS, o dispositivo monitora atividade, sono e comportamento, e agora integra o Fi Intelligence, um assistente de saúde com inteligência artificial que usa os dados individuais de cada animal para identificar padrões, sinalizar anomalias e comparar o cão com outros da mesma raça, idade e porte. Por ora, o produto está disponível nos Estados Unidos, Reino Unido, França, Espanha, Alemanha e Canadá, mas aponta o caminho para onde o mercado global, inclusive o brasileiro, inevitavelmente se dirige.
O mercado de saúde pet no Brasil ainda engatinha — e é exatamente por isso que desperta tanto interesse. Hoje, apenas 0,4% dos cães e gatos brasileiros têm plano de saúde, segundo levantamento da Petlove, maior operadora do segmento no país, com 65% de market share (os planos da empresa variam de R$ 39,90 a mais de R$ 500 por mês, dependendo da cobertura e da região).
Na América do Norte, esse índice chegou a quase 4%, segundo a Associação Norte-Americana de Seguros de Saúde Animal (NAPHIA) — e o setor arrecadou US$ 5,2 bilhões em 2024, crescimento de 20,8% em relação ao ano anterior. São dois mercados em estágios completamente distintos de maturidade, mas com o mesmo vetor: tutores que não querem ser surpreendidos por uma conta veterinária que não podem pagar.
Você lê o rótulo do seu alimento. Por que não leria o dele?
A alimentação é, de longe, o maior segmento do mercado pet nacional, responsável por mais de 54% do faturamento total do setor, o equivalente a R$ 40,8 bilhões em 2024, segundo a Abinpet. E o que mudou não é quanto os tutores gastam, mas o que eles exigem: ingredientes rastreáveis, fórmulas sem conservantes, proteínas alternativas, superalimentos. A ração ultraprocessada começa a perder espaço para refeições naturais congeladas, formuladas por nutricionistas veterinários e entregues em casa por assinatura.
A lógica é a mesma que reorganizou a alimentação humana no pós-pandemia: se eu leio o rótulo do que como, por que não ler o do que dou ao meu cão? Snacks funcionais que prometem melhorar articulações, pelagem ou imunidade já fazem parte das prateleiras e dos algoritmos de recomendação dos e-commerces. Lá fora, a tendência é ainda mais visível: a Freshpet, marca americana especializada em alimentos refrigerados para pets, registrou crescimento de 27,2% no faturamento em um único ano, chegando a quase US$ 1 bilhão em 2024. O dado mostra que o tutor, quando convencido da proposta, tem baixa resistência ao preço.
Vitaminas, probióticos, ômega 3, colágeno e suplementos para articulações e imunidade também são parte da rotina de cuidados de muitos animais numa onda que espelha, quase ponto a ponto, o boom do mercado de suplementação humana.
O pet tem agenda - e ela está lotada
Se antes o padrão para o cuidado estético dos cães era banho e tosa, hoje é hidratação, aromaterapia e massagem. Petshops evoluíram para salões de estética com tratamentos especializados. Resorts — como o Dog Resort, em São Paulo — oferecem hospedagem com natação terapêutica supervisionada por veterinários e programas específicos para cães idosos ou com necessidades especiais. O segmento global de serviços de estética e higiene animal foi estimado em US$ 6,89 bilhões em 2024 e deve chegar a US$ 10,35 bilhões até 2030, segundo a Grand View Research. No Brasil, os serviços gerais do setor cresceram 10% em faturamento em 2024, segundo o Instituto Pet Brasil. É um mercado que cresce junto com a consciência de que bem-estar não é luxo, mas rotina.
Um detalhe: em abril de 2026, o Brasil ganhou a Lei nº 15.392, que institui a guarda compartilhada de animais de estimação em casos de divórcio ou dissolução de união estável, e determina que, na ausência de acordo, é o juiz quem define como o tempo com o animal será dividido entre as partes, levando em conta condições de moradia, disponibilidade e capacidade de cuidado. É uma lei sobre pets. Mas é, sobretudo, uma lei sobre nós. Sobre como reorganizamos nossos afetos, nossas prioridades e, agora, nossos contratos sociais em torno de seres que não falam, não votam e não assinam documentos, mas que ocupam, cada vez mais, o centro de nossas vidas. Não por acaso, o boom do wellness pet acontece no mesmo momento em que a legislação reconhece que os bichos não podem mais ser tratados como bens de consumo.











