Todo brasileiro “de bem” conhece alguma Maria de Fátima, mesmo não associando seu nome a uma só pessoa ou resumindo sua existência à célebre personagem de Vale Tudo – da primeira versão, que fique claro, porque a segunda pode ser apagada da memória coletiva sem prejuízo algum à cultura nacional.
Criada há quase 40 anos por Gilberto Braga, a protagonista da novela das oito superou o seu criador e vive no meio de nós, já descolada da ficção, eternizada e atemporal no papel de figura arquetípica, cada vez mais surreal e com criatividade impossível de se reproduzir em ficção: na adaptação que o Brasil faz de si para o mundo virtual, a vida não só imita a arte, como a replica em cópias autenticadas em cartório para não duvidarmos de sua veracidade.
A Maria de Fátima dos tempos modernos transcende gênero, raça, cor, origem, idade e classe social; pode ter nascido pobre como a original, ascendido socialmente ou ser rica desde o berço, usar linguagem neutra e se candidatar a deputada. O que está em jogo é uma ambição incapaz de encontrar seu ponto de saciedade, alimentada por divulgação exacerbada já nem apenas ou tanto por dinheiro, mas em nome de pertencimento, prestígio, circulação, acesso, reconhecimento e proximidade com quem ocupa, naquele momento, algum lugar considerado desejável.
Hoje ela escorre no seu scroll entre a opinião formada de uma influenciadora de moda sobre a guerra na Ucrânia e o antes-e-depois de um procedimento que promete apagar 15 anos em 40 minutos. A personagem não só foi levada para a cama, como fez publicidade para a marca de colchão em troca de um jogo de lençóis com fios suficientes para dar um nó na cabeça de qualquer antropólogo.
As Marias de Fátima de agora se deram bem, tal e qual sua musa inspiradora. Mas há uma diferença decisiva: no último capítulo da novela, a pilantrinha vivida por Gloria Pires saiu por cima porque a história parou ali; o final feliz só existe porque ninguém contou o que vinha depois.
As Fátimas reloaded pegaram emprestados o estilo de vida, talvez uns diálogos também, e fantasiaram o que Fátima seguiria fazendo se a novela nunca tivesse acabado. Ela posta de taça de vinho na praia a soro na veia no Einstein, distribui likes como numa barraca do beijo em parada do orgulho gay, segue e persegue novos amigos (idolatra e os cancela com o mesmo entusiasmo de um amor à primeira vista) e prova no stories que chegou lá. Lá onde mesmo? A chegada não importa, os meios e os fins se perderam no caminho, mas tudo está documentado como se cada imagem fosse uma etapa vencida numa corrida que ninguém mais está competindo com ela. Para ela, escrúpulo, princípio e ética são estampas de t-shirt para usar no Dia de Iemanjá.
A manutenção do hype é cara, trabalhosa e enfadonha. E Fátima sabe disso, mas está disposta a pagar, porque o arrefecimento social a apavora: é preciso continuar circulando, sendo convidada, vista, lembrada, incluída, estar online, on the rocks e, se possível, on the top. A Maria de Fátima original queria subir; a reloaded descobriu que chegar a algum lugar não resolve o problema, porque sempre haverá outro lugar um pouco acima, outra mesa, outro grupo, outra pessoa cuja proximidade parece conferir mais valor à própria presença. Ela sabe que os donos da escada são os que sustentam a engrenagem, e basta ela queimar o filme para outro alguém subir para trocar a lâmpada.
Esses mecanismos foram montados ainda na infância, e isso não faz dela ingênua, nem lúdica. Quem não teve experiência sólida de vínculo naqueles primeiros anos também não constrói um chão próprio para se sustentar: aprende a ficar de pé cedo demais, antes de ter estrutura para isso, e o que parece equilíbrio, de perto, é um jeito bem treinado de não cair. Dessa mesma origem nasce o radar que a acompanha depois, a leitura instantânea de qualquer ambiente, capaz de captar em segundos onde está o poder numa sala, quem interessa, quem pode abrir uma porta e quem já não tem porta alguma para abrir. É com esse radar que ela decide onde investir bajulação, sempre ao lado de quem lhe oferece alguma possibilidade de movimento; se o centro de gravidade se desloca, sua posição é corrigida sem alarde, porque sua lealdade acompanha a temperatura das circunstâncias.
A única ingenuidade real está em achar que dá para agir assim indefinidamente sem que ninguém perceba: o interesse raramente passa despercebido para quem já foi seu objeto, e as pessoas notam muito mais do que dizem, sobretudo as que passaram a vida cercadas de gente interessada. O rico antigo, o poderoso experiente e a pessoa bem instalada socialmente conhecem a diferença entre afeto e disponibilidade interessada; só nem sempre se incomodam com ela.
Como disse a personagem Solange Duprat, também da primeira versão, com Lidia Brondi (spoiler tardio: a máxima é de Abraham Lincoln, mas quem imortalizou foi Solange... chupa Lincoln!): “Você pode enganar todo mundo por quase todo tempo. Quase todo mundo por todo tempo. Mas você não pode enganar todo mundo por todo tempo.”
Ainda assim, Maria de Fátima não me parece imoral, e sim amoral: há consciência, inteligência, percepção das consequências, mas a moralidade ocupa lugar secundário diante de uma urgência que vem de muito antes. Se uma oportunidade a aproxima daquilo que deseja, todo o resto encontra um jeito de se acomodar, porque a ambição está instalada num andar muito acima da autoestima, que funciona no limite mínimo necessário para evitar seu apagamento.
Na personagem original a escassez material é evidente, na versão em carne e osso a carência é mais primordial: falta afeto, reconhecimento, palavra, olhar, segurança, vínculo, e quando essas faltas chegam cedo demais, a abundância pode adquirir uma força quase hipnótica. Um jantar oferecido aqui, uma passagem ali, alguns dias numa casa de férias, uma permuta, uma mesa à qual sozinha ela dificilmente chegaria: visto de fora, pode parecer pouco, mas para quem se formou na experiência da escassez esse pouco tem outro tamanho.
Maria de Fátima não fica esperando para receber essas recompensas: ela se faz útil. Está disponível, pronta para ser o ombro amigo, quem acompanha ao médico, escuta durante horas, resolve uma pendência, apresenta alguém. Pode exercer durante anos a função informal de dama de companhia sem jamais chamar aquilo por esse nome, e sua utilidade acaba se tornando a própria razão de sua presença. Para quem observa de fora, a operação às vezes é bastante evidente; para ela, não. Dentro de sua própria narrativa, está vivendo, fazendo amigos, sendo querida, e pode ser querida de fato: interesse e afeto convivem na mesma pessoa com uma facilidade que nossos julgamentos morais prefeririam não admitir. A questão fica mais complicada quando essa utilidade passa a sustentar sua permanência, porque enquanto houver algo que ela possa fazer pelo outro, existe uma razão objetiva para que o outro continue precisando dela – e o problema começa quando essa leitura passa a organizar a identidade inteira, porque ela sabe perfeitamente como deve ser com cada um, mas encontra bem menos resposta quando não há ninguém diante dela a quem servir.
Existe ainda uma dimensão patológica importante nessa estrutura, uma espécie de narcisismo por procuração. Trocando em miúdos, é aquela velha placa do botequim de todo subúrbio: “Se a sua estrela não brilha, não procure apagar a minha.” Maria de Fátima faz uma adaptação particular da máxima: como não acredita que sua própria estrela produza luz suficiente, aproxima-se de outra que brilhe muito, e passa a se iluminar por essa luz alheia. Para isso, precisa ocupar uma posição bem específica: não pode disputar o centro do palco com a pessoa da qual retira sua luminosidade sem correr o risco de perder a própria fonte, e por isso se instala um pouco atrás, numa zona de sombra próxima o bastante para ser reconhecida como parte da cena. É a amiga de, o braço direito de, a confidente de.
Já que se ilumina pelo outro, aceita viver em parte na sombra, e quem está na sombra não irradia muita luz. Ainda assim, o pânico da invisibilidade é tal que o escuro parece preferível ao desaparecimento: entre existir de lado e não existir, ela escolhe existir de lado, perto o bastante para ser tocada pela cena, reconhecida nela, fotografada nela, mencionada por ela. E a sombra desaparece quando a fonte de luz muda de lugar, então é preciso acompanhá-la de perto.
Daí sua oferta permanente de presença: “Estou aqui” é uma das grandes promessas dessa Maria de Fátima, para a inauguração, a madrugada, para ouvir a mesma história de novo, para ir ao velório, confirmar sua versão dos acontecimentos. Presença, porém, não garante vínculo: ela sabe chegar, acompanhar, circular, fazer companhia; o vínculo exige suportar ausência, diferença, conflito, silêncio, e períodos em que ninguém devolve a confirmação de que ela ainda importa, nem sempre por cálculo, mas porque nunca aprendeu a oferecer o que nunca recebeu. Para quem depende dessa confirmação, o silêncio tem algo de abandono.
As redes sociais deram a essa estrutura a superfície perfeita: a troca pode ficar na epiderme por muito tempo sem parecer insuficiente, porque é imediata, organizada em pequenas confirmações sucessivas, um like, um tag, uma foto. Olhe para mim, e o outro olha, e por alguns segundos está resolvido, até que seja preciso olhar de novo.
Havia, antes, um cheiro nas coisas mal explicadas: quem carregava dinheiro de origem duvidosa sabia disso, e essa consciência, mesmo que não impedisse nada, ainda funcionava como um resquício de vergonha. Hoje esse cheiro foi removido do ar, a origem virou uma pergunta que ninguém faz mais, nem por educação, nem por cautela, porque a pergunta pressupõe que a resposta importaria, e ela não importa.
O que sobrevive é só a imagem, sem a cadeia de causas que a produziu por trás: não se vê o caminho até ali, só a chegada, eternamente reencenada. Achatou-se o tempo que antes separava o ato da consequência, o crime da culpa, o excesso do julgamento; tudo virou superfície, um presente contínuo sem antes nem depois. É essa falta de sequência que torna tão difícil responsabilizar qualquer coisa: não há mais história para reconstituir, só um feed que nunca para de atualizar.
Parar significaria enfrentar uma pergunta que toda essa movimentação conseguiu adiar: quem sobra quando ninguém está olhando? Para quem construiu a própria sustentação a partir do olhar alheio, ficar em casa é mais ameaçador do que parece – o telefone precisa continuar ligado, a próxima onda precisa ser encontrada antes que a atual termine. E Maria de Fátima continua por perto, perfeitamente disponível, procurando um lugar na sombra de alguém que ainda esteja sob os refletores.















