Por que o filme sobre Amyr Klink não navegou rumo ao Oscar?

Por que o filme sobre Amyr Klink não navegou rumo ao Oscar?

Apesar das qualidades, o longa é uma jornada muito individual em um tempo de reflexões coletivas

É compreensível o longa Cem Dias, dirigido por Carlos Saldanha, não ter sido o escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Internacional.

Apesar das qualidades, a produção, inspirada no livro Cem Dias Entre o Céu e o Mar, do navegador Amyr Klink, apresenta uma jornada individual em um tempo em que as histórias coletivas nunca foram tão valorizadas. 

Os filmes nacionais Ainda Estou Aqui (2025) e O Agente Secreto (2026) são provas bem-sucedidas desta tendência mundo afora. Feito Pipa, o longa de Allan Deberton que pleiteia a indicação, promete comover com a história universal de um menino forçado a encarar uma maturidade precoce devido a uma doença da avó.      

Cem Dias chega aos cinemas brasileiros em 29 de outubro cercado de expectativas, e essa curiosidade não deve ser diluída por causa da decisão da Academia Brasileira de Cinema. 

Protagonizado por Filipe Bragança, o filme conta a trajetória empreendida pelo obstinado jovem paulista, então com 29 anos, contrariando a tudo e a todos. Muitas vezes mais parece ficção — e, quem sabe, esteja aqui o ponto nevrálgico. Falta uma identificação com a realidade.

Em 1984, Klink saiu do porto de Lüderitz, no sudoeste africano, em um barco construído por ele mesmo e aportou cem dias depois no litoral baiano, tornando-se a primeira pessoa no mundo a atravessar o Atlântico Sul a remo.

Grande parte do filme se desenrola durante a viagem, costurado por flashbacks que mostram a preocupação e a torcida da mãe, Asa (interpretada por Philippine Leroy-Beaulieu), e do irmão, Tymur (o ator João Vitor Silva), e os atritos permanentes com o pai, Jamil (papel de Felipe Camargo). 

Para fortalecer a narrativa, as qualidades técnicas são impactantes, como a fotografia de Rodrigo Monte, a direção de arte de Cassio Amarante e a montagem de Fernando Stutz. 

Mesmo com um ritmo lento, Cem Dias não deixa de ser um drama de aventura, e o espectador se sente em alto-mar.

Bragança no papel principal oferece uma interpretação interiorizada capaz de superar qualquer caracterização. O intérprete, que já demonstrou versatilidade em incursões no cinema e na televisão, ressalta a personalidade de Klink nos silêncios e encontra uma parceria à altura com Camargo para as cenas mais expansivas.

Entretanto, são dois personagens menores na ação, o engenheiro naval Fúria (o ator Duda Mamberti) e a nutricionista Flora (a atriz Martha Nowill), que se tornam importantes por revelar o temperamento autocentrado e irascível do navegador. Graças a eles, o protagonista se vê diante de uma curva dramática que o obriga a reavaliar atitudes.

Por estas e outras, tudo gira em torno de Klink e, enquanto a sua profunda humanização é um ponto alto, a excessiva personalização limita o alcance do filme de Saldanha. Quem não tem grandes referências ou alimenta admiração pelo personagem resiste em entender suas convicções e objetivos.

A problemática relação com o pai ajuda na compreensão, mas, mesmo assim, é pouco explicada e não alivia a imagem de que tudo poderia ser um capricho de um playboy no exercício da rebeldia. 

Resta ao espectador mais atento decifrar o caráter tempestuoso de Jamil através de flashes, como a cena em que o homem se irrita ao volante quando uma multidão em festa interdita a passagem de seu carro em uma rua estreita de Paraty.

O tempo se encarregou de provar que a determinação de Klink que começou com a construção de um minúsculo barco para cruzar o Atlântico Sul entrou para a história e outros feitos invejáveis viriam na sequência, evidenciando a sua grandiosidade empreendedora. 

Saldanha, porém, tratou o personagem real com o mesmo heroísmo daqueles que explorou em seus desenhos animados e pode ser notada até uma certa ingenuidade na escolha narrativa.

Cem Dias vai agradar aos fãs de Klink, mas pode se tornar enfadonho para aqueles que não simpatizarem de imediato com o protagonista ou busquem mensagens mais reflexivas voltadas para a coletividade. 

O roteiro de Elena Soarez e Thais Tavares é excessivamente focado em um único acontecimento, tem uma estrutura predominantemente racional em detrimento da emoção e, caso outras histórias ambientadas na terra, fossem exploradas, provavelmente o filme atravessaria o oceano com mais tranquilidade.

Leia também:

Siga o Page9 no Instagram — e assine a newsletter