O conceito da exposição Beijo de Língua, de Nelson Felix, nasceu há 48 anos, em Lima, Peru, em uma conversa com um grande amigo, sobre um dos idiomas locais, Aemara (Aymara, em espanhol) e sua reflexão sobre a formação de um palíndromo com a língua Aramea (Aramaico, na versão em espanhol).
“O aramaico era o inglês da época, a língua dos viajantes. Uma das primeiras línguas escritas, anterior ao grego. Em Roma, solidificou um pensamento cristão, e depois veio para cá. O nome da exposição veio dessas duas línguas que se identificam através do palíndromo, como se fosse um beijo de língua”, disse o artista ao Page9.

O eixo central da exposição, em cartaz no MAC-USP, é construído a partir de textos de três autores: Bertrand Russell, Homero e Santa Teresa D’Ávila, que geram três esculturas homônimas à exposição.
São peças de mármore Carrara, cada uma composta por duas chapas com um texto, escolhido pelo artista, traduzido para as duas línguas (Aramaico e Aymara) e escrito em letras vazadas.

“Colo estas duas chapas com os textos. Assim, nos caracteres, surgem vazamentos mútuos, as línguas se tocam, e para mim, um beijo”, disse o artista.
Felix tem como marca registrada do seu trabalho a criação de obras que se conectam, criando, assim, uma linguagem artística contínua.
Beijo de Língua tem curadoria de Fernanda Pitta e reúne cerca de 90 obras gráficas, oito esculturas, seis fotografias e um vídeo. As obras são feitas em materiais diversos: mármore, bronze, ferro, cabo de aço, cacto e fio de seda.

Page9 visitou a exposição durante sua montagem, na companhia de Nelson Felix. A seguir, nossa conversa com o artista, que aborda a nova mostra e também uma reflexão sobre o mercado de arte.
P9: O que simboliza para você a abertura dessa exposição?
Nelson Felix: “Eu convivo há muito tempo com esse trabalho, desde 1978. Uma coisa que você faz há tanto tempo e que não resolveu, nunca te abandona. Esse trabalho, de um certo jeito, esteve presente em tudo que eu fiz. Mesmo quando eu chegava a uma solução, um pouco depois via que o trabalho tinha uma potência maior do que eu estava dando naquele momento. Isso aconteceu umas três, quatro vezes. Mas ele nunca saiu da cabeça.”
P9: Quais são as características que definem o seu trabalho?
Nelson Felix: “Meu trabalho tem uma característica fundamental que existe na música, mas raramente nas artes plásticas. Quando você faz uma sinfonia, tem movimentos que você vai juntando em uma composição com uma complexidade muito maior, para se compor uma sinfônica. Meu trabalho é assim: faço uma exposição e construo a ligação com a próxima. É como se fosse um trabalho contínuo. E mesmo quando ele não aparece, ele é resolvido poeticamente. A pessoa que observa não é passiva — ela precisa lembrar o que veio antes e antecipar o que vem depois. Isso em artes plásticas é muito raro. Eu sofri muito com isso durante a vida, porque ninguém entendia.”
P9: E você fez da arte a sua linguagem?
Nelson Felix: “Sou compulsivo por desenhos — é como eu penso, a minha forma de falar. Uma linguagem mesmo. Às vezes, acho que nem o português é a minha língua.”
P9: Como você vê o crescimento do interesse econômico em torno da arte?
Nelson Felix: “Isso não é novo. Há algumas décadas abriu essa oportunidade de investimento e o investidor percebeu. Assim como percebeu em tudo — você pode investir num jogador de futebol, num músico, em quem faz moda... As artes visuais sempre estiveram na ponta, e geram objetos. Se você observar o Jornal Nacional e medir o tempo que ele gasta com economia e o tempo que gasta com cultura, você já sabe o que está acontecendo no mundo. 70% é economia. A linguagem hoje é uma linguagem econômica — inclusive na esfera da arte. Eu acho que uma hora vamos esgotar os recursos e isso terá que mudar.”
P9: Como você impede que esta perspectiva econômica da arte atrapalhe seu processo criativo?
Nelson Felix: “O mais interessante, o que faz a vida valer de verdade, é colocar pensamentos no circuito. Se uma biblioteca pega fogo, se acaba a internet, acaba o conhecimento do mundo — é muito triste. Um banco que vem à falência vai esbarrar para todo mundo, mas passa. Uma nova biblioteca da Babilônia pegando fogo seria indigestíssimo. O processo de construção do pensamento — os elos que os artistas, os filósofos, os cientistas vão criando — esse é o grande valor que a gente tem. Ter essa intenção já vale a vida. Não mereço viver para ganhar dinheiro aqui ou ali — mereço viver porque estou na minha maior potência mental. Isso me dá uma razão de viver. Uma ideia mais longa, uma ideia sublime, uma ideia de felicidade."
Beijo de Língua
Em cartaz até 29 de novembro, no MAC-USP.
















