A MPB sobe a serra

A MPB sobe a serra

Eclético e animadíssimo, o festival Rock The Mountain reúne gerações e cenas distintas em Itaipava, no Rio de Janeiro

Existe uma diferença entre ir a um festival e viajar para um festival. No caso do Rock The Mountain, a experiência começa antes mesmo do primeiro acorde no Parque Municipal Prefeito Paulo Rattes, em Itaipava. A Serra Fluminense desacelera o percurso, muda a paisagem e faz do deslocamento parte da imersão que se tornou a identidade do evento.

A história começou em 2013, nas montanhas de Petrópolis, com uma edição para cerca de 2 mil pessoas. O evento cresceu junto com sua ambição e, mais de uma década depois, se tornou um dos grandes festivais de música do Brasil, reunindo milhares de pessoas por dia. A escala mudou, mas a geografia permaneceu no centro de sua proposta. 

Em 2026, o festival ocupa novamente Itaipava em dois fins de semana: de 30 de outubro a 1º de novembro e de 6 a 8 de novembro. No line-up, Jorge Ben Jor, Ivete Sangalo, M.I.A., Jorja Smith e o projeto Dominguinho, de João Gomes, Jota.pê e Mestrinho, estão entre os principais nomes anunciados. 

Mas reduzir o Rock The Mountain aos headliners seria ignorar aquilo que o distingue de outros festivais: uma curadoria que mistura diferentes estilos musicais e aproxima artistas consagrados de nomes que ajudam a desenhar o presente da nossa música.

Poucos representam essa continuidade tão bem quanto Jorge Ben Jor. No auge dos seus 87 anos, o camisa 10 da Música Popular Brasileira apresenta uma obra que passa por samba, funk, rock, jazz, referências africanas, futebol e misticismo sem obedecer inteiramente a nenhuma dessas categorias. Na programação, ele integra ao lado de Paulinho da Viola, Marcos Valle e Leci Brandão um grupo de artistas cuja importância não ficou restrita ao passado, uma vez que suas obras continuam fornecendo vocabulário para quem produz música no presente.

Na outra ponta dessa conversa está Dora Morelenbaum. Depois de conquistar um Grammy Latino com a banda Bala Desejo, a cantora e compositora lançou, em 2024, “Pique", seu primeiro e único álbum solo que intercala entre MPB, jazz e pop. 

No meio dessa convivência entre gerações, um dos nomes mais aguardados é o projeto “Dominguinho", que reúne João Gomes, Jota.pê e Mestrinho. Nascido da amizade entre os três músicos e do desejo de dividir o palco, o título faz referência tanto ao mestre do forró quanto ao clima despretensioso das rodas de domingo. Vencedor do Grammy Latino de 2025 na categoria de Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa, o trabalho reforça a vitalidade do forró ao mostrar que tradição e renovação podem coexistir na mesma obra.

Entre as atrações internacionais, Jorja Smith chega ao festival em um momento interessante da carreira. A cantora britânica, que transita entre R&B, soul e jazz, se tornou conhecida por faixas como “Blue Lights", “Be Honest” e "Little Things". 

Há ainda encontros que bagunçam qualquer tentativa de organizar a música brasileira em gavetas. Xênia França e Assucena se reúnem em Jah Van, projeto dedicado ao repertório de Djavan, Timbalada encontra a Afrocidade e o grupo peruano Los Mirlos amplia o mapa para a América Latina. Formado na Amazônia peruana nos anos 1970, o grupo se tornou uma referência ao fundir guitarras psicodélicas e influências do surf rock com a cumbia amazônica, gênero de origem colombiana que se espalhou e ganhou diferentes formas pela nossa América.

Fora dos palcos, o Rock The Mountain ocupa uma área de 150 mil metros quadrados entre montanhas com ativações, gastronomia e atrações como a roda-gigante, além de um espaço dedicado às crianças. 

Pelo quarto ano consecutivo, o festival mantém uma lista de ingressos gratuitos destinada a pessoas trans e não binárias, com prioridade para moradores da Região Serrana e municípios próximos. A iniciativa integra uma política de acesso voltada a grupos historicamente afastados de grandes eventos culturais e considera, ainda, o impacto do deslocamento até Itaipava.

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