Uma causa que não cabe em outubro

Uma causa que não cabe em outubro

Marcas de beleza dão visibilidade ao câncer de mama, mas o verdadeiro impacto depende do que fazem o ano todo

Durante muito tempo, falar sobre câncer de mama significava enfrentar uma barreira anterior ao próprio diagnóstico: o silêncio. 

Fora dos consultórios, o estigma e a falta de informação faziam com que muitas mulheres atravessem a doença sem encontrar espaço para falar sobre ela com familiares ou amigos próximos.

Foi nesse cenário que Evelyn H. Lauder, executiva da Estée Lauder, decidiu transformar a causa em um compromisso pessoal. Depois de receber o diagnóstico em 1989, ela se aproximou de Alexandra Penney, então editora-chefe da revista Self, e, juntas, criaram a fita rosa, em 1992. O símbolo começou a ser distribuído nos balcões de beleza da marca e ajudou a levar a discussão para além dos espaços médicos.

A fita se tornou um dos emblemas mais reconhecidos da conscientização sobre o câncer de mama e, desde o início, a campanha associou a visibilidade à importância do diagnóstico precoce e do financiamento da pesquisa, duas frentes que continuam centrais no enfrentamento da doença.

A atriz Elizabeth Hurley acompanha essa história de perto. Embaixadora global da campanha desde 1995, participou de ações em diferentes países e conheceu mulheres com experiências muito distintas, algumas das quais infelizmente não sobreviveram à doença. Ao longo dessas três décadas, viu a conversa se ampliar e reforça que as mensagens originais continuam necessárias. “Muita coisa mudou na forma como falamos sobre o assunto, mas as mensagens originais continuam muito importantes, especialmente entre as mulheres mais jovens,” diz.

A relação da atriz com a causa é íntima: sua avó, com quem tinha uma ligação próxima, morreu de câncer de mama. Ao pensar no que mudou desde então, a atriz imagina como ela reagiria à exposição pública que o assunto ganhou. “Minha avó ficaria espantada ao ver pessoas falando sobre mamas e câncer de mama na televisão e em público. No início dos anos 1990, ninguém falava sobre isso,” diz. “É uma pena que isso não tenha acontecido antes.”

Entre as mulheres que Hurley conheceu ao longo dos anos, uma história ficou marcada: a de uma jovem diagnosticada aos 19 anos que, cinco anos depois, havia sobrevivido à doença graças à detecção precoce. Encontros como esse convivem com histórias de mulheres que não tiveram a mesma sorte e reforçam, para a atriz, o quanto ainda há por fazer. “O trabalho só estará concluído quando o câncer de mama acabar,” diz. A meta é que a pesquisa continue avançando até que a doença possa ser curada em todos os casos — e, idealmente, prevenida.

A campanha também ganhou as ruas e o céu de algumas das cidades mais emblemáticas do mundo. Desde 1997, monumentos e edifícios são iluminados de rosa como parte da iniciativa. Para Hurley, ver o Cristo Redentor entrar nessa lista tinha um significado especial: era um desejo antigo de seus anos como embaixadora. Na noite de 19 de outubro, mesmo dia em que essa entrevista foi feita, o monumento carioca se iluminou de rosa, levando a campanha a um dos cenários mais reconhecíveis do Brasil.

A relação entre beleza e conscientização não se esgota na fita rosa. Existe uma dimensão mais íntima dessa indústria, ligada à maneira como as mulheres se reconhecem, se expressam e se relacionam com o próprio corpo. Quando uma doença transforma essa relação, a possibilidade de cuidar da aparência pode assumir um significado que vai além da vaidade.

Iza Dezon, especialista em tendências e sócia-fundadora da DEZON, foi diagnosticada com um câncer de mama aos 37 anos e hoje, aos 40, reflete, a partir da própria história, sobre as mudanças que a doença provoca na percepção do corpo e sobre o peso simbólico atribuído às mamas na sociedade brasileira.

No País, os seios são frequentemente tratados como um “ativo”, associados à feminilidade, à sensualidade e à aparência. Em uma cultura que atribui tanto valor a essa parte do corpo, mudanças provocadas pelo tratamento podem afetar também a maneira como uma mulher se reconhece. Entretanto, procedimentos como a mastectomia e a reconstrução mamária atravessam histórias muito particulares, impossíveis de resumir em uma única narrativa.

“Ninguém pode decidir como uma mulher atravessa um câncer, se é se importando ou não com a estética,” diz. Há uma diferença entre impor padrões de aparência e reconhecer o lugar que determinados cuidados podem ocupar na vida de uma paciente. Durante o próprio tratamento, ela conta que ficar sem sobrancelhas foi uma experiência difícil.

A discussão também passa por mudanças que costumam receber menos atenção, como o ressecamento da pele, a fotossensibilidade e os efeitos da menopausa induzida por determinados tratamentos. São desconfortos que podem interferir na rotina e na relação com o corpo, mas nem sempre encontram respostas específicas. Para Dezon, reconhecer essas necessidades faz parte de uma conversa sobre cuidado que não se encerra no protocolo clínico.

Essa lacuna também ajuda a pensar no papel das marcas quando decidem se envolver em uma causa. Dezon vê dois compromissos como fundamentais: o investimento no diagnóstico precoce e no tratamento, sempre acompanhados da difusão de informação. “Campanhas que privilegiam apenas a narrativa de superação deixam de lado a complexidade de quem está vivendo a doença,” diz.

O câncer de mama é uma das causas que mobilizam a indústria da beleza, mas não a única. Em 1994, quando a epidemia de HIV/Aids ainda era marcada pelo estigma e pela desinformação, a MAC criou a VIVA GLAM, iniciativa que transformou a venda de batons em uma fonte de recursos para organizações que atuam na prevenção e no tratamento, além do acolhimento de comunidades afetadas. 

Ao longo da história, a campanha arrecadou mais de US$ 540 milhões globalmente, consolidando um modelo em que um produto de beleza financia ações que ultrapassam o próprio mercado.

A Maybelline, por sua vez, lançou o Brave Together para enfrentar o estigma em torno da ansiedade e da depressão e facilitar o acesso a apoio em saúde mental.

A iniciativa combina conscientização com recursos de suporte, reconhecendo que falar sobre um problema é o começo, mas não uma resposta suficiente para quem precisa de ajuda.

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