Ozempets? A revolução das canetas para cães e gatos

Ozempets? A revolução das canetas para cães e gatos

Com 4 em cada 10 pets acima do peso, veterinários investigam se as canetas emagrecedoras podem abrir um novo capítulo na saúde animal

Depois de revolucionar o tratamento da obesidade humana, Ozempic, Wegovy e Mounjaro começam a virar assunto também nos consultórios veterinários. Com a balança dos pets em alta, a possibilidade de usar esses medicamentos para ajudar cães e gatos a perder os quilos extras já desperta interesse entre os especialistas.

Segundo Alan Gomes Pöppl, diretor científico da Associação Brasileira de Endocrinologia Veterinária (ABEV) e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), cerca de 40% a 45% dos cães e gatos brasileiros apresentam sobrepeso ou obesidade. O quadro acompanha mudanças nos hábitos dos tutores, que compartilham com os animais o sedentarismo e o excesso de calorias.

As consequências não param na aparência. O excesso de peso aumenta o risco de artrose, diabetes, alterações metabólicas e problemas respiratórios. Também pode comprometer a expectativa de vida. Dependendo da raça, explica o especialista, cães obesos podem viver até 20% menos, diferença que pode se aproximar de três anos em animais de pequeno porte.

Mas os tratamentos que transformaram a medicina humana já podem oferecer os mesmos benefícios aos animais?

Por enquanto, não há evidências suficientes que comprovem esse uso. Embora existam pesquisas com substâncias dessa classe, especialmente em felinos, faltam estudos que estabeleçam doses, segurança e eficácia da semaglutida e da tirzepatida para o emagrecimento animal.

“Não temos, no momento, nenhum estudo publicado em revistas revisadas por pares mostrando ou sugerindo doses, segurança e eficácia no uso desses medicamentos a médio e longo prazo,” diz Pöppl.

Um estudo publicado em 2016 na revista científica PLOS ONE, citado pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio de Janeiro (CRMV-RJ), avaliou a exenatida em gatos obesos e não encontrou diferença estatisticamente significativa na perda de peso em relação ao placebo. A entidade lembra que resultados obtidos com uma substância não comprovam automaticamente a eficácia de outra.

O endocrinologista, porém, acredita que essas substâncias poderão ter um papel relevante na medicina veterinária. Como os mecanismos biológicos relacionados ao apetite e à saciedade também estão presentes em outros mamíferos, há razões para investigar seu potencial.

“Não tenho dúvidas de que vão ser tratamentos que vão ajudar muito,” diz. “Porém, a questão é a segurança.”

Pöppl relata ter conhecimento de colegas que já utilizam esses medicamentos e de farmácias que oferecem versões manipuladas.

Segundo ele, usar doses e protocolos humanos em animais pode provocar vômitos, diarreia e redução excessiva do apetite. Nos gatos, a falta de alimentação pode desencadear lipidose hepática, condição grave que compromete o fígado.

A ABEV publicou um posicionamento destacando a ausência de protocolos seguros e os riscos dos produtos manipulados. Em resposta à reportagem, o CRMV-SP também ressalta que não existem indicações formais aprovadas para o uso dessas substâncias no tratamento da obesidade animal.

Enquanto a ciência busca respostas sobre os medicamentos, o mercado pet aposta em produtos nutricionais voltados à saciedade e ao controle de peso.

É nessa frente que atua a Wigow, marca brasileira de suplementos para cães criada com investimento de R$ 8 milhões. O Wigow Balance é uma barrinha que combina fibras, proteína de salmão, vitaminas, antioxidantes e L-carnitina. Com 32,8 calorias por unidade, pode ser dividida em pedaços e oferecida como alternativa aos petiscos tradicionais.

A proposta nasceu de um hábito conhecido por qualquer tutor: oferecer comida como demonstração de carinho. Um pedaço de pão, uma borda de pizza, um biscoito depois do passeio. Pequenos agrados que, repetidos ao longo do dia, podem representar uma quantidade significativa de calorias extras.

Georgiana Magacho, CEO da marca, diz que o objetivo é manter o mimo. “Não se trata de eliminar o carinho em forma de petisco, mas de repensar como demonstramos esse afeto,” diz.

Ela ressalta que o produto não contém os princípios ativos das canetas emagrecedoras e não substitui o acompanhamento veterinário.

De olho na expansão desse segmento, a empresa projeta alcançar R$ 300 milhões em valor de mercado em 2027 e R$ 1 bilhão até 2029.

Entretanto, Pöppl afirma que nenhuma dessas novidades elimina a necessidade de enfrentar o problema mais comum, que é o excesso de comida. A maior parte dos casos de sobrepeso está relacionada a erros de manejo alimentar, como porções exageradas e petiscos frequentes, embora doenças endócrinas também possam contribuir.

O tratamento começa pelo reconhecimento do excesso de peso. Depois, o veterinário estabelece uma meta individualizada, calcula a quantidade diária de calorias e indica uma alimentação adequada.

Entre as recomendações do especialista estão pesar as porções numa balança doméstica e incorporar brincadeiras, passeios e enriquecimento ambiental à rotina. Uma redução inicial de 10% do peso já pode trazer benefícios, mesmo antes de o animal alcançar sua condição corporal ideal.

Os novos tratamentos podem mudar esse cenário no futuro. Por ora, permanece uma lição menos tecnológica: carinho também pode ser uma caminhada, uma brincadeira ou alguns minutos de atenção, sem que seja preciso abrir outro pacote de petiscos.

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