Em 1994, o grid da Fórmula 1 ainda gritava com motores aspirados de 3,5 litros: o V10 Renault da Williams, o V8 Ford da Benetton e o V12 da Ferrari. Era um uivo metálico e agudo, que a arquibancada sentia no peito antes de ver o carro passar. Os híbridos de hoje soam de maneira educada perto daquilo.
Em 13 de novembro, na última corrida do ano, na Austrália, Michael Schumacher estava fora do carro, de pé à beira da pista, esperando para saber se o rival Damon Hill voltaria. Momentos antes, os dois tinham se tocado na briga pela liderança. O Benetton ficou nos pneus. O Williams do inglês seguiu, torto, até os boxes.
Hill não voltou. Aos 25 anos, Schumacher era campeão do mundo por um ponto, o primeiro alemão a conseguir isso. Seis meses antes, tinha se perguntado se valia a pena continuar correndo.
Seria o primeiro de sete títulos. Por quase duas décadas, foi o maior vencedor da história da Fórmula 1. Desde o acidente de esqui de dezembro de 2013, porém, nunca mais apareceu em público, e a família controla com rigor o que se conta sobre ele. Esse silêncio alimenta documentários como Schumacher 94: Nasce Uma Lenda, recém-lançado na Netflix.
A diretora alemã Christin Freitag reconstitui os acontecimentos de 1994 com imagens de arquivo, cenas recriadas e depoimentos de quem estava lá, de Corinna Schumacher a Flavio Briatore. O filme não esgota 1994, mas acerta no retrato de um campeão em formação e desmonta o clichê do piloto frio e calculista. A frieza, sugere Freitag, era em parte uma forma de proteção.
Freitag põe o espectador na altura do capacete, ao lado de um piloto que cresceu ouvindo motor de kart na pista de que o pai cuidava em Kerpen. Em 94, ele venceu em Interlagos e em Aida, no Japão. Chegou a Ímola com 20 pontos. Senna, pressionado, ainda não tinha nenhum.

Em Ímola, foram três dias. Na sexta, Rubinho decolou na Variante Bassa e sobreviveu. No sábado, Roland Ratzenberger morreu ao bater a mais de 300 km/h na curva Villeneuve. No domingo, na sétima volta, a Williams de Senna seguiu reto na Tamburello. Quem viu pela TV lembra dos sons: a batida seca de fibra de carbono contra concreto, o rotor do helicóptero, o silêncio do autódromo.
O filme dedica cerca de 25 minutos ao fim de semana e aposta nos rostos. Schumacher, que vinha logo atrás de Senna, venceu uma corrida que ninguém quis comemorar e subiu ao pódio sem saber se o brasileiro estava vivo.
Para nós, acostumados à versão do herói, é talvez a primeira vez que aquela morte aparece pelos olhos de quem estava no carro de trás e tinha Senna como referência.
Numa entrevista antiga resgatada pelo filme, o alemão conta que, depois de Ímola, passou a ver perigo em situações banais, até fora das pistas.
Em 5 de maio, quando o Brasil parou para enterrar Senna em São Paulo, Schumacher não foi. Preferiu ir a uma sessão de testes com a Benetton. Na época, a ausência foi interpretada como frieza. Mais tarde, Schumacher explicou que precisava descobrir se ainda conseguia pilotar e admitiu que se arrependia de não ter ido, mas temia ser hostilizado no Brasil. Diante do que o filme mostra, sua ausência soa como medo, não como desprezo.
Quem conduz o lado pessoal é Corinna, namorada de Michael na época e sua mulher desde 1995. Ela fala de um rapaz que precisava vencer enquanto a fama crescia mais rápido que ele, e admite que não sabia de todas as inseguranças que ele expunha em público. Na trilha, entre composições originais, toca “Rush Rush”, de Paula Abdul, música com significado particular para o casal.
Lá fora, era a Schumi-Mania. A Alemanha nunca tivera um campeão de Fórmula 1, e de repente o rapaz de Kerpen lotava autódromos e estourava em flashes.
Quando a corrida era do outro lado do mundo, os alemães acordavam de madrugada para se reunir diante da TV, como os brasileiros faziam por Senna. A equipe de Freitag vasculhou cerca de 1.300 horas de arquivo atrás dessa reação do público. Nessas imagens aparece um homem que dominava cada detalhe do carro e não tinha o menor domínio sobre a fama.
Depois de Ímola, a disputa com Hill saiu da pista. Em Silverstone, Schumacher ultrapassou o inglês na volta de apresentação, ignorou a bandeira preta e acabou desclassificado.
Semanas depois, num julgamento da FIA em Paris, ganhou também uma suspensão de duas corridas. Em Spa, perdeu a vitória por desgaste irregular no assoalho. A Benetton vivia sob a suspeita de usar eletrônica proibida, e cada punição alimentava o coro contra o alemão. A vantagem folgada do começo do ano foi derretendo até virar um ponto.
O filme conta essa parte do lado alemão, e aqui o brasileiro se reconhece. Visto da Alemanha, Schumacher era um campeão perseguido pela FIA. É o mesmo sentimento que temos com Senna em 1989, quando ele foi desclassificado no Japão e o título ficou com Prost, sob a presidência do francês Jean-Marie Balestre. O documentário mostra um piloto sentindo o peso: as audiências, as críticas, a cobrança de um país inteiro.
Foi assim que ele chegou à Austrália. Na 36ª volta e em posição de liderança, o piloto que parecia nunca errar, errou. Escapou sozinho e raspou o muro. Ao voltar à pista, viu Hill tentar ultrapassá-lo, e o resto é a cena que abre este texto. Campeão, dedicou o título a Senna.
O filme tem seus limites. Feito com o apoio da família, ele se interessa mais pelo efeito das punições sobre o alemão do que pelos motivos delas. As suspeitas sobre a Benetton são citadas — não investigadas —, sem depoimentos de Damon Hill. A batida que decidiu o título, discutida há três décadas, vira o clímax de uma jornada de superação, sem o contraponto de quem estava no outro carro.
Ainda assim, o que mais chama atenção é o olhar alemão sobre o seu ídolo. Freitag humaniza Schumacher. Mostra que ele sentiu a pressão, que errou na hora decisiva e que, mesmo assim, saiu campeão. Isso diz muito sobre o tamanho dele como vencedor.
O filme termina com uma dedicatória a Senna e Ratzenberger e deixa 2013 de fora. Na tela, fica um alemão de 25 anos, rápido e assustado, prestes a virar lenda.














