A culpa é de Mercúrio

A culpa é de Mercúrio

Ou como o sistema solar se tornou responsável pelas nossas escolhas idiotas

O inferno são os outros, escreveu Sartre em mais uma manhã pouco inspiradora no Café de Flore. A frase fez carreira garantindo um verniz existencialista a quem não leu uma linha do autor e, de lambuja, resume uma mania humana de hoje e de sempre (do futuro não me arrisco a falar): a culpa é de qualquer um, menos de quem pisou na bola. 

Nos primeiros anos, o mais prático é apontar para a mãe, argumento que convencia, ainda convence, mas tem prazo de validade. Cedo ou tarde chega a maioridade, quando não a maturidade, e quem já cruzou os 21 e a décima sessão de análise vai ter de encontrar outra justificativa. Por sorte, descobrimos uma alternativa muito mais abrangente, que poupa os pais e tem a vantagem de estar a milhões de quilômetros de distância: o sistema solar.

Freud chamaria a manobra de deslocamento, o mecanismo que faz o funcionário repreendido pelo chefe descontar no cachorro. Como nenhum vira-lata suportaria tanta frustração, a humanidade terceirizou o serviço para Mercúrio retrógrado. 

Atrasos, discussões, e-mails mandados por engano, computadores que pifam, dates desastrosos e decisões tomadas depois da terceira taça de vinho vão parar na conta do pobre planeta, que aguenta 430 graus de temperatura e de quebra administra os humores de uma designer gráfica na Vila Madalena. Ele tem até a gentileza de divulgar a agenda com décadas de antecedência, o que permite programar o vexame entre o dentista e a reunião de condomínio, e quando retoma a marcha normal deixa uma superlua ou um eclipse cobrindo o expediente. O calendário celeste se transformou num livro de reclamações cósmico, com a particularidade de que os acusados jamais comparecem para se defender.

Os réus, aliás, só são intimados quando o caldo entorna: promoção é mérito pessoal, simpatia ou macumba, demissão é obra de Mercúrio. Nunca ouvi ninguém creditar aos astros a sensatez de terminar um namoro ruim ou a proeza de chegar pontual a um compromisso. Quem devolve uma carteira achada na rua não abre o mapa astral atrás de um motivo, mas basta mandar uma mensagem obscena no grupo da família para que se convoque o firmamento inteiro a depor.

Uma amiga passou meses tentando entender por que os casos dela não iam além do terceiro encontro, até alguém lhe sugerir que a resposta morava numa conjunção da casa 5, que rege as paixões, com o quinto dos infernos. A hipótese de colecionar gente casada ou, no campo afetivo, tão útil quanto uma máquina de lavar quebrada nem entrou na investigação, já que as estrelas ofereciam um culpado sem CPF.

O zodíaco faz hora extra mesmo é no amor, onde até ontem quem sumia por 15 dias e reaparecia às duas da madrugada com um “tava pensando em você” recebia de imediato o diagnóstico de mau-caratismo. Antes de cravar uma conclusão tão precipitada, agora é preciso saber o horário exato em que a pessoa amada nasceu, porque vai que é de Escorpião com ascendente em Gêmeos e uma Lua complicada, combinação que a impede de dar notícias, mas não de alimentar três perfis em aplicativos de paquera.

Na mesa de bar, a toxicidade da criatura é consenso, inclusive para quem segue dormindo com ela. O céu estava limpo, a turma avisou, os prints não deixavam dúvida e até o porteiro do prédio já tinha entendido o enredo, mas a parte interessada conseguiu extrair de Vênus em Peixes uma leitura sofisticada o bastante para decidir que a relação merecia uma nova chance. Os manuais de psiquiatria têm um verbete para isso, alucinose, que descreve a visão que o paciente identifica como falsa e não consegue largar. No ambulatório, o quadro pede remédio, e no bar, mais uma rodada.

Os vendedores de autoconhecimento perceberam depressa que essa compulsão de procurar longe de casa a razão dos nossos tropeços dava dinheiro. Em alinhamento de chakras, tarô, terapia quântica e constelação familiar vai embora uma pequena fortuna, na tentativa de descobrir por que insistimos nas velhas burradas. Quem tem pressa recebe ao acordar, por aplicativo, conselhos do calibre de “evite conversas difíceis”, que avó nenhuma teria coragem de cobrar. Muitos sabem de cor em que signo andava Júpiter quando vieram ao mundo e esquecem o aniversário da mãe. Os mais adiantados já foram apresentados à própria criança interior e passaram a fazer birra junto com ela nas reuniões de trabalho e nas brigas de casal.

Com uma mãozinha do vocabulário do consultório, os defeitos de fábrica ganharam nome novo. O egoísmo atende por necessidade de estabelecer limites e a grosseria virou defesa energética. Dar o bolo, outrora conhecido como falta de modos, acabou promovido a respeito pelo próprio tempo. Conheço quem faça um discurso impecável sobre responsabilidade afetiva enquanto dispensa aos semelhantes o carinho que um fiscal da Receita de mau humor reserva ao contribuinte. Mencionar a contradição rende a acusação de atrapalhar o processo de cura alheio ou de emitir vibrações incompatíveis com a fase atual do indivíduo.

Numa geração tão empenhada em revirar a infância e catalogar padrões, desenvolvemos um horror genuíno ao assumir a autoria de uma besteira banal. Pedir desculpa e admitir um vacilo parecem tarefas rudimentares demais para quem prefere “trabalhar suas questões”, e o deslize precisa ter origem num trauma de vidas passadas ou num trânsito de Plutão capaz de emprestar alguma dignidade ao papelão. Dizer “fiz merda”, que encerrava o assunto sem rodeios, caiu em desuso diante de teorias de R$ 400 para cima.

Sartre, imune ao charme dos astrólogos, dedicou um capítulo de O Ser e o Nada a desmontar o velho hábito de se desresponsabilizar, que ele batizou de má-fé: a mentira que contamos a nós mesmos para fingir que não escolhemos o que escolhemos. O dono do bordão preferido de quem culpa os outros garantia que estamos condenados a ser livres - um detalhe que não cabe numa legenda de Instagram.

Daí o conforto do horóscopo, que explica quase tudo e não exige mudança de quem consulta, desde que se acompanhem com devoção os movimentos de Saturno. A propósito, Mercúrio está retrógrado até 13 de novembro e volta a recuar em 9 de fevereiro. No intervalo, sem bode expiatório à vista, resolva sua vida. Se nada der certo, culpe o feng shui.

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