Neste domingo, quando os carros estiverem a postos em Interlagos, terão 71 voltas pela frente, um campeão já definido e uma plateia que pouco lembra a da primeira corrida do Mundial.
Em 13 de maio de 1950, no circuito de Silverstone, na Inglaterra, o italiano Giuseppe Farina venceu com um Alfa Romeo pesado, de motor dianteiro, pilotado sem cinto de segurança. Terminaria o ano campeão, aos 43 anos.
Em 2026, o título ficou com outro italiano, Kimi Antonelli, de 20 anos — o mais jovem da história. Entre um e outro, mudou praticamente tudo: o carro, quem o pilota, quem assiste e quem lucra com isso.
A Fórmula 1 não tem um único fundador. Foi criada pela FIA, a Federação Internacional do Automóvel, em 1946, com a Europa ainda em escombros. O nome "fórmula" deriva do conjunto de regras que todos os carros precisam seguir, e o "1" indica o topo da pirâmide. Antes disso já existiam os Grand Prix, o primeiro deles organizado pelo Automóvel Clube da França, em 1906.
A potência e a funcionalidade dos carros mudaram radicalmente ao longo das décadas. Nos anos 1950, as máquinas tinham chassi de tubos de aço e motor na frente. Em 1959, Jack Brabham, que além de piloto era mecânico e engenheiro, foi campeão com um Cooper de motor traseiro e ajudou a consolidar o novo desenho.
Com o motor atrás, as rodas traseiras ganharam mais tração nas acelerações, tornando o carro muito mais ágil e rápido nas curvas, e a posição do piloto foi alterada. Ele pôde sentar-se de forma mais inclinada e baixa, melhorando a estabilidade.
Em 1962, a Lotus criou o monocoque de alumínio, que trocou o esqueleto de tubos por uma peça única, como uma casca, mais leve e mais segura. Em 1968 chegaram as asas, que funcionam como as de um avião ao contrário: empurram o carro para baixo e permitem fazer curvas mais rápido.

Dez anos depois, a Lotus aplicou o mesmo princípio ao fundo do carro: o assoalho foi desenhado para acelerar o ar que passa por baixo, criando uma espécie de vácuo que gruda o carro no chão. É o chamado efeito solo.
Em 1981, a McLaren estreou a fibra de carbono, mais leve que o alumínio e muito mais resistente, até hoje a base de todo carro de F1. E em 2014 vieram os motores híbridos, que recuperam a energia das frenagens e a devolvem como potência extra.
O perfil dos pilotos também mudou. Nos anos 1950 eles eram, em boa parte, homens maduros, muitos deles ricos o bastante para bancar a própria carreira. O piloto argentino Juan Manuel Fangio conquistou o último de seus cinco títulos aos 46 anos. Corria-se de camisa de manga curta, e a morte era um risco aceito como parte do ofício.
A virada definitiva veio depois de 1º de maio de 1994, quando Ayrton Senna morreu em Ímola, um dia depois do austríaco Roland Ratzenberger. A segurança virou prioridade, e a FIA endureceu os testes de batida que cada carro precisa passar antes de correr.
As laterais do cockpit foram elevadas para proteger a cabeça e o pescoço do piloto. A peça mais visível chegou em 2018: o halo, um arco de titânio sobre a cabeça do piloto, capaz de aguentar o peso de um ônibus. Na estreia foi julgado pela aparência. Dois anos depois, no GP do Bahrein, Romain Grosjean bateu a mais de 200 km/h, o carro se partiu ao meio e pegou fogo. Quando o carro atravessou a barreira de metal, foi o halo que bateu primeiro e abriu caminho entre as lâminas, impedindo que a cabeça de Grosjean se chocasse contra elas. Protegido também pelo macacão à prova de fogo, ele saiu do meio das chamas por conta própria em menos de 30 segundos.

Hoje, pilotos de F1 são atletas de alto rendimento formados desde a infância. Kimi Antonelli deu as primeiras voltas num kartódromo aos 7 anos; Gabriel Bortoleto, que corre em casa neste fim de semana pela Audi, passou pela academia de jovens pilotos da McLaren antes de chegar ao grid.
As mulheres seguem raras ao volante: a italiana Maria Teresa de Filippis foi a primeira a largar num GP, em 1958, e Lella Lombardi é até hoje a única a pontuar, com meio ponto em 1975. Para mudar esse cenário, a F1 criou em 2023 a F1 Academy, uma categoria só de mulheres entre 16 e 25 anos, com carros de nível Fórmula 4 e o apoio das equipes de F1. Uma delas é brasileira: a catarinense Rafaela Ferreira, de 21 anos, que corre com o apoio da Racing Bulls.
Com a TV, o Mundial deixou de ser assistido só por quem estava na pista. A audiência global atraiu patrocinadores e transformou os pilotos em celebridades.
No Brasil, a F1 passou a ser televisionada nos anos 1970, numa parceria entre a Record e a Tupi. Em 1980, a Band se tornou a primeira emissora a exibir uma temporada inteira, e no ano seguinte a Globo assumiu os direitos por quatro décadas. Foi ali que o domingo de manhã virou ritual nacional com a voz de Galvão Bueno gritando “Ayrton, Ayrton, Ayrton Senna do Brasil!” A Band voltou em 2021, e em 2026 a categoria retornou à Globo, com contrato até 2028 — agora sem Galvão, substituído por Everaldo Marques.
No mundo, a forma de ver também mudou: a primeira câmera a bordo ao vivo estreou no GP da Alemanha de 1985, e hoje o serviço de streaming F1 TV deixa o fã escolher de qual carro quer assistir.
A grande transformação veio depois que o grupo americano Liberty Media comprou a categoria, em 2017. Os antigos donos mantinham a F1 longe do YouTube e das redes sociais. Em 2018, a categoria somava 18 milhões de seguidores em suas contas oficiais; em 2025, segundo a própria F1, eram 106 milhões.
A série Drive to Survive, lançada pela Netflix em 2019, levou os bastidores a quem nunca tinha visto uma corrida, e o filme F1 (2025), com Brad Pitt, levou a categoria às salas de cinema.
O resultado está no perfil do público: segundo a F1, com base em pesquisa da Nielsen, são 827 milhões de fãs no mundo, 42% deles mulheres e 43% com menos de 35 anos. No Brasil, a categoria contabiliza 71 milhões de fãs, 45% mulheres. Nas arquibancadas, a temporada de 2025 reuniu 6,7 milhões de pessoas, recorde histórico.
E o que nasceu como uma competição esportiva se tornou um negócio poderoso. Hoje, a FIA cuida das regras e da arbitragem; a Formula One Group, da Liberty Media, cuida do negócio, sob o comando do italiano Stefano Domenicali, ex-chefe da Ferrari e da Lamborghini.
Em 2025, a F1 faturou US$ 3,87 bilhões, e o calendário passou de sete corridas, seis delas europeias, para mais de 20 etapas espalhadas por cinco continentes, três delas nos Estados Unidos.

Em Interlagos, que recebe GPs do Mundial desde 1973, Gabriel Bortoleto, único brasileiro no grid, vai correr com um Audi verde e amarelo, com desenho inspirado no piso paulista, e um capacete que homenageia os 35 anos da primeira vitória de Senna em casa.
A torcida brasileira não para de crescer e segue esperançosa de quebrar um jejum de 18 anos sem ver um brasileiro vencer em casa. O último foi Felipe Massa, em 2008.















