Durante décadas, o cigarro ocupou um lugar central no imaginário cultural da moda e do cinema. De Audrey Hepburn a Kate Moss, ele foi eternizado como símbolo de glamour, rebeldia e poder. Mas, após anos de campanhas e políticas de combate ao tabagismo, volta a parecer cool e desejável.
Fumar é o novo-velho mau hábito dos nossos tempos.
De dois anos pra cá, o cigarrinho vem ganhando cada vez mais espaço público na moda e na cultura pop. Se antes pegava mal para uma celebridade aparecer fumando em um trabalho, agora ele volta a fazer parte da construção criativa, aparecendo em letras, videoclipes, shows e editoriais de artistas como Charli xcx, Lorde, Addison Rae e até Beyoncé, que acendeu um cigarro no palco durante sua turnê Cowboy Carter enquanto cantava “Ya Ya”.
Em um desfile da colaboração entre 16Arlington e Antony Price Salon, em Londres, Lily Allen entrou na passarela segurando um cigarro aceso, em um look inspirado em Holly Golightly, personagem de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo. Na música “Headphones On”, Addison Rae canta “Guess I gotta accept the pain / Need a cigarette to make me feel better”.
A faixa “What Was That”, de Lorde, também coloca o ato de fumar como um hábito que está presente em momentos de emoção, da angústia ao êxtase: “We kissed for hours straight, well, baby, what was that? / I remember saying then, ‘This is the best cigarette of my life’".
Na época do lançamento de Brat, Charli xcx resumiu o conceito do seu “brat summer” como “um maço de cigarros, um isqueiro Bic e uma blusa branca sem sutiã”. Charli é uma fumante tão assumida que ganhou, no aniversário de 32 anos, um buquê de flores decorado com cigarros, presente de Rosalía. Entre outras celebridades fotografadas fumando recentemente estão Bella Hadid, Sabrina Carpenter, Doechii e Lily-Rose Depp. Hailey Bieber, a rainha da estética clean girl, surpreendeu o público ao aparecer fumando em um editorial para a revista Interview, usando um vestido laranja volumoso e dramático da Saint Laurent.
O cigarro volta a circular como item fashion que, em vez de parecer nocivo, revisita uma ideia antiga de glamour. Mas o que está por trás desse retorno? O fenômeno parece surgir da convergência de diferentes movimentos — estético, comportamental e até político.
Parte da resposta está na nostalgia, uma das tendências mais dominantes dos últimos anos. O revival do indie sleaze, traz de volta ao centro da cultura pop uma estética ligada ao hedonismo, ao excesso e à liberdade despreocupada dos anos 2000. Era o universo de Kate Moss, Amy Winehouse, Mary-Kate e Ashley Olsen, Alexa Chung e Alison Mosshart: noites intermináveis, flashes estourados, magreza extrema e cigarros como extensão da personalidade cool.
A volta do indie sleaze parece ser uma reação à era das clean girls, do wellness, da produtividade e da busca pela aparência e vida perfeitas. Há uma fadiga da perfeição e uma nova vontade de bagunça. o cigarro volta menos como hábito e mais como linguagem visual; ele é o novo prop dessa cultura. Ganhou até um perfil no Instagram, o Cigfluencers, que posta fotos antigas e atuais de… celebridades fumando.
O ponto é que esse movimento vai além da nostalgia Y2K. Existe hoje um fascínio renovado pelo comportamento excessivo, desde que ele venha embalado de forma sedutora.
Um exemplo recente é o clipe “Storm”, do rapper sueco Yung Lean. Dirigido por Romain Gavras e com coreografia de Damien Jalet (nome por trás de trabalhos como Suspiria, de Luca Guadagnino, Anima, de Paul Thomas Anderson, além de shows de Madonna e Florence + The Machine), o vídeo é visualmente hipnótico e inundou as redes sociais nas últimas semanas. Ambientado em uma escola masculina distópica, acompanha Lean no papel de um bully que intimida seus colegas em um ambiente sem autoridade, limites ou consequências. E claro, ele também fuma no clipe.
Se por um lado o filme parece dialogar com discussões contemporâneas sobre masculinidade, alienação e a pressão para performar, por outro ele propaga um comportamento contra o qual estamos fortemente tentando lutar, o bullying. E o fato de ser impactante esteticamente, coloca uma postura violenta em uma roupagem sedutora.
Estamos vivendo um momento em que figuras públicas normalizam a quebra de pactos coletivos, regras e consensos. Comportamentos antes vistos como irresponsáveis, agressivos ou politicamente inaceitáveis passam a ocupar posições de admiração cultural, o que acaba criando uma atmosfera cultural mais permissiva. E aí passam a fazer parte da cultura red pills, tech bros, a estética da magreza extrema e até os procedimentos surreais que temos visto em celebridades e influencers.
A moda, como sempre, responde rapidamente às mudanças de valores e comportamentos. Em um texto para o New York Times, a escritora Amy Odell observa que “as pessoas parecem cada vez menos preocupadas em esconder seus excessos” ao analisar a normalização de procedimentos estéticos cada vez mais extremos entre celebridades e elites econômicas. Existe algo em comum entre rostos hipermodificados e a volta do cigarro como símbolo cool: o excesso deixa de ser escondido e volta a circular culturalmente com glamour. Se antes bolsas de luxo funcionavam como símbolo de status, agora rostos esticados, preenchimentos, implantes e cirurgias altamente visíveis também passaram a ocupar esse lugar. O que antes era para ser discreto, agora passa a ser exibido.
Se em 2013 Gwyneth Paltrow podia dizer livremente que “o que faz a vida interessante é encontrar o equilíbrio entre cigarro e tofu,” hoje não é tão simples assim, visto o que já sabemos sobre os efeitos do tabaco. Mas, ao menos enquanto essa nostalgia durar, o cigarro seguirá ocupando esse lugar ambíguo entre o glamour e a decadência; menos sobre saúde e mais sobre desejo. E desejo raramente é racional.

















