O novo “galã” brasileiro

O novo “galã” brasileiro

O Brasil montou uma linha de produção de Kens humanos, cada um jurando ser único, saindo da mesma esteira e da mesma fôrma

Nos tempos da TV e das relações analógicas existiu um tipo de galã brasileiro que, mais cedo ou tarde, sentia a necessidade de esclarecer numa entrevista que não queria ser visto apenas como um rostinho bonito.

A preocupação era compreensível: o sujeito tinha sido agraciado pela genética com um combo feliz de olhos, nariz, boca e maxilar e emprestava a cara a um anúncio de shampoo 6 em 1 que também podia ser colônia e desinfetante de pia. 

Cansado de tirar a camisa na novela das 7, um belo dia achava por bem avisar ao País que também pensava, que queria fazer teatro e envelhecer em papéis complexos, porque a beleza, oh maldição!, atrapalhava a revelação de sua profundidade.

O astro de fuça perfeita de outrora, que reivindicava o intelecto e ignorava o dermatologista com a mesma ênfase com que dava as costas para as leis da física, foi substituído pelo “famoso quem” de agora: o influenciador. 

A Involução Digital, inaugurada com o advento e a adicção do Instagram e do TikTok, revelou ao grande público uma legião de rapazes que, ao que parece, apresentam a queixa oposta: de cabeça ninguém ali sente falta, e o rosto passou a obedecer a um padrão que nem a ciência, a antropologia ou a Márcia Sensitiva (eu queria falar de Zora Yonara, mas temi ser vítima de etarismo) seriam capazes de prever ou explicar. Antes restritos à sala de musculação, aos consultórios clandestinos, às esteticistas e a rotinas que nunca fugiam muito da norma, eles vieram à tona decididos a transformar a cara redonda numa live sobre geometria e disforia. 

A olho nu, trata-se de uma aventura alucinada de Hanna-Barbera desenhada pelo Angeli para a revista MAD, cada um com seu perfil meio talk show, plateia de seguidores e comentários que me fazem pensar em Paulo Freire e na minha primeira professora de português, a tia Judite. Com resultados tão desalinhados, o nome harmonização passou a soar como propaganda enganosa – cheguei a pensar em demonização, mas seria injusto com o diabo, que ao menos tem personalidade. Por isso fico com dramatização facial, já que tem uma tragédia grega em curso, nenhuma assinada por Sófocles ou Eurípides, mais parecida com alguma peça perdida em que todos os atores entram em cena com a mesma máscara e ninguém reconhece mais o próprio semblante.

Maxilares e bocas foram desenhados a régua, os dentes alcançaram uma brancura compatível com uma casa caiada em Patmos e a pele adotou um bronzeado vitalício mitad Rayito de Sol, metà Aperol, de modo que diante de dez fotos a impressão é de uma dezena de irmãos separados na infância que se reencontraram na mesma clínica de um bairro chamado Misericórdia. 

Virou um baile temático, em que todos chegaram fantasiados do mesmo personagem, e o Brasil, com uma vocação fabril notável para amores líquidos e opiniões plásticas, montou uma linha de produção de Kens humanos, cada um jurando ser único, saindo da mesma esteira e da mesma fôrma, vinda de algum lugar equidistante entre Goiânia e Alphaville.

Concluída a obra, o novo “galã” descobriu, como o antecessor da televisão, que também não queria ser só mais um rostinho bonito, ou, a essa altura, mais um maxilar no formato de uma Telefunken, e resolveu mexer na legenda para que a gente saiba que por trás daquele abdômen existe um homem que sofreu, errou, amadureceu, identificou relações tóxicas, encontrou seu propósito, respeitou seus processos e, sobretudo, aprendeu que ninguém deve apagar a sua luz. 

Nasceu daí uma das manifestações culturais mais extraordinárias do nosso tempo, a sensualidade filosófica. Os códigos são muito precisos: o sujeito aparece pensativo, de tronco nu e calça sem cueca, exibindo pelos e volumes que não chegaram à foto por acidente. A sunga é mínima e a reflexão, enorme; o abdômen ocupa quase todo o quadro e, na faixa que sobra, somos convidados a meditar sobre maturidade emocional. Às vezes está deitado na rede olhando para o nada, tendo descoberto que “algumas pessoas chegam às nossas vidas apenas para nos ensinar a partir” – o que pode até ser verdade, mas o ângulo foi escolhido com tanto cuidado que ninguém parte antes de dar zoom.

Digamos que esta seja a versão atualizada do nu artístico, que nos anos 1980 e 1990 ajudou muita gente a mostrar a perereca sem culpa em troca de grana suficiente para realizar o sonho da casa própria. 

Agora, o nu é mais reflexivo e vem escoltado por psicologia, espiritualidade e, sempre que possível, alguma beneficência, de modo que você entra por causa de duas coxas espetaculares e sai instruído sobre a importância de honrar os próprios limites. 

O curioso é que ninguém mais acorda gostoso e tira uma foto sem que o gesto faça parte de uma jornada rumo ao autoconhecimento e, bem, bagagem cultural: em certos dias é política e, entre um tutorial de maquiagem e uma série de quadríceps na academia, surgem Gaza, Amazônia, racismo, aquecimento global, democracia, saúde mental e monogamia. São assuntos de pouca monta, como qualquer um percebe, e o corpo deles segue lá, iluminado com esmero, carregando nos ombros, além do trapézio, o peso moral do mundo, numa espécie de militância com personal trainer. 

A propósito, a maquiagem masculina não me incomoda por nenhuma razão moral, apenas técnica: eles erram o tom da base, o corretivo, o esmalte, não sabem fazer uma misturinha nem pedir uma francesinha. Séculos monopolizando parlamentos, bancos, igrejas e exércitos e, quando finalmente resolvem dividir a nécessaire com as mulheres, aparecem com a cara do Bozo e o pescoço da Vovó Mafalda. Direitos iguais e liberdade absoluta, sim, mas alguém precisa estabelecer critérios mínimos de entrega. Dito isto, machos desconstruídos e metrossexuais: vão lustrar um carro!

Chegamos então ao paradoxo mais bonito: quanto mais parecidos eles ficam, mais precisam falar de autenticidade, e como todos exibem o mesmo perfil, nos dois sentidos, e o mesmo vocabulário sobre propósito, energia, processos e gente que “soma”, sobrou para a legenda a tarefa de garantir que estamos diante de um indivíduo singularíssimo, uma vez que a medicina estética já tinha uniformizado a fisionomia e o algoritmo, o pensamento. A vaidade me fascina por cegar quem a carrega, e enquanto o sujeito não enxerga nada além do próprio reflexo, eu, do outro lado da tela, ganho um hiperfoco de que nem me sabia capaz.

Escrevo isso sem nenhuma cruzada em mente, e antes que alguém venha defender o direito ao próprio corpo, poupe seu tempo: corte, estique, preencha, injete, aspire, implante, levante e se mostre à vontade, que a humanidade sobreviveu a vexames piores e eu não tenho objeção alguma a um físico bem apresentado. Nada disso é questão moral, muito menos campanha pela volta de uma beleza natural, outra invenção deveras suspeita. 

O problema fica mais grave por ser só estético, porque para quase todas as mazelas coletivas a gente inventou alguma esperança de remédio, da distribuição de renda contra a pobreza à cadeia contra a corrupção, enquanto para o mau gosto não existe governo, imposto progressivo, programa da Unicef, santo ou vacina que dê jeito. Ele é endêmico, mora num lugar muito fundo e cedo ou tarde encontra o caminho da superfície – neste caso a epiderme, essa vitrine onde a alma acaba exposta, queira o dono ou não, use filtro ou não.

Descartes, que passou a vida separando a alma do corpo, duvidou dos sentidos, do mundo e da própria carne até sobrar a certeza de que pensava, e com ela se deu por existente. O influenciador brasileiro fez o caminho inverso: da carne não duvida nem por um segundo, e o que lhe tira o sono é a hipótese de existir sem que ninguém o veja.

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