Eu não queria um rosto novo. Queria o meu de volta

Eu não queria um rosto novo. Queria o meu de volta

Depois de emagrecer 20 quilos, a empresária Fernanda Domecg decidiu fazer um lifting facial

Quando decidi fazer um lifting facial aos 43 anos, minha intenção não era parecer mais jovem. Não queria voltar aos 30, apagar minhas marcas ou tentar convencer alguém de que o tempo não tinha passado. Queria algo muito mais simples: voltar a olhar no espelho e me reconhecer.Tudo começou depois de um período difícil da minha vida — durante um processo de depressão, engordei 20 quilos. Quando comecei a sair daquele lugar, existia em mim uma vontade muito grande de voltar a ser a Fernanda de antes. 

Emagreci os 20 quilos que havia ganhado e, no processo, descobri duas coisas: a primeira é que eu jamais seria exatamente a mesma pessoa de antes, porque algumas experiências nos impactam e nos transformam. A segunda era muito mais concreta: meu corpo tinha voltado ao peso anterior, mas meu rosto não. A perda de peso deixou uma flacidez facial que me incomodava. Sempre tive o rosto um pouco mais cheio, mas minhas bochechas caíram e surgiu aquele efeito de marionete ao redor da boca. 

Brincava que meu rosto tinha “derretido”, porque era exatamente essa minha sensação. De manhã, com o inchaço natural ao acordar, parecia ainda mais evidente. Passar um creme, me maquiar ou simplesmente me olhar no espelho virou um pequeno incômodo diário.Tentei resolver sem cirurgia — fiz preenchimento nas têmporas, ultrassom microfocado, coloquei fios de PDO, estimuladores de colágeno. Já fazia toxina botulínica e fui aumentando gradativamente a complexidade dos procedimentos na esperança de encontrar uma solução menos invasiva, até perceber que estava gastando bastante dinheiro tentando corrigir parcialmente uma coisa que talvez só pudesse ser resolvida de outra maneira.

Minha filha achava que eu era nova demais para fazer um lifting, e entendo o raciocínio. No nosso imaginário, existe uma idade em que determinadas cirurgias estéticas parecem se tornar socialmente “aceitáveis”. Mas a pergunta que fiz para ela foi muito simples: se a idade considerada adequada fosse 50 anos, eu deveria passar os próximos sete anos insatisfeita com meu rosto apenas para esperar chegar a uma idade que os outros considerassem certa?

Acredito que, se algo realmente incomoda e existe a possibilidade de uma mudança segura e consciente, não há por que tratar o sofrimento como uma virtude.

Já vivi algo parecido anos antes. Durante a amamentação, tive mastite e minhas mamas ficaram assimétricas. Aquilo me incomodava. Quando coloquei prótese de silicone, entendi algo sobre cirurgia plástica que nunca mais esqueci: a maior mudança não aconteceu quando coloquei um biquini. Aconteceu nos dias comuns, quando me olhava no espelho e gostava do que eu estava vendo.

Talvez seja por isso que eu não compre muito essa ideia de que toda intervenção estética representa uma incapacidade de aceitar o envelhecimento. Aceito que estou envelhecendo, tenho 43 anos e nenhum problema com isso. 

Envelhecer, para mim, não significa ser obrigada a aceitar qualquer mudança no meu corpo que me cause incômodo. Existe, inclusive, uma contradição difícil de contornar: a mulher que envelhece sem fazer nada é criticada porque “não se cuida”; a que decide fazer alguma coisa é criticada porque “não aceita envelhecer”. Qualquer escolha pode ser julgada. Então, prefiro fazer aquela que faz sentido para mim.

Não escolhi a cirurgia, mas sim o problema que queria resolver. Por isso, quando fui no meu cirurgião, não cheguei pedindo um deep plane face lift — mostrei o que me incomodava e pedi que ele resolvesse. A escolha técnica foi dele. 

Isso também fazia parte da confiança que eu tinha no processo: já havia operado com aquele médico, conhecia o seu trabalho e sabia que era um profissional experiente, estudioso e responsável. Minha formação em medicina me ajudou menos na decisão de operar e mais na maneira como enfrentei tudo que veio depois. 

Eu sabia que uma cirurgia de aproximadamente cinco horas teria um pós-operatório, que haveria edema, que meu rosto passaria por fases estranhas antes de chegar ao resultado. Sabia que a recuperação tem tempo e que tentar acelerar esse tempo não muda a fisiologia.

Quando você compreende o que está acontecendo, aceita melhor. Não significa que eu não tive medo — na véspera apareceu aquele pensamento que acredito que muitas mães conhecem, e é o mesmo que aparece antes de uma cirurgia ou até de uma viagem: e se eu não voltar para casa?

Não consegui eliminar completamente esse medo, então fiz o que estava ao meu alcance para reduzi-lo e escolhi um profissional em quem confiava, fiz a cirurgia dentro de um hospital que possuia recursos caso alguma coisa não acontecesse como o esperado e me certifiquei de que estava cercada por uma equipe preparada. Depois disso, existe uma parte que não conseguimos controlar.

Quando me vi depois da cirurgia, não me assustei. Tinha pesquisado, visto fotos e vídeos e sabia que encontraria um rosto bastante inchado. Mas existe aquele terceiro ou quarto dia depois de uma cirurgia plástica em que passa pela cabeça uma pergunta bastante objetiva: “Meu Deus, por que fiz isso?". Comigo também aconteceu.

A parte mais difícil, de longe, foi a faixa usada no pós-operatório. Dormir de barriga para cima também foi desconfortável. Teve o edema, o taping e aqueles momentos em que eu precisava sair e percebia algumas pessoas me olhando com uma expressão de quem claramente estava tentando entender o que tinha acontecido comigo. 

Ao mesmo tempo, minha recuperação funcional foi surpreendentemente rápida — no dia da alta já lavei o meu cabelo e fazia praticamente tudo sozinha. Cinco dias depois fui liberada para dirigir e não precisei depender de outras pessoas para as atividades do dia a dia. Mas uma coisa é estar fisicamente bem, outra é olhar no espelho e reconhecer o resultado.

Por volta de quinze dias, já me sentia confortável socialmente. Com aproximadamente vinte dias, veio o primeiro “nossa, ficou lindo". A maquiagem voltou algumas semanas depois e ficou ainda mais gostosa de fazer porque, em vez de tentar disfarçar aquilo que me incomodava, ela passou novamente a servir para realçar meu rosto. 

Hoje estou com cerca de 50 dias de cirurgia. O resultado ainda não é definitivo — isso leva meses. E talvez seja importante dizer isso porque existe uma expectativa estranha em torno da cirurgia plástica, como se a pessoa entrasse no centro cirúrgico com determinada idade e saísse de lá alguns anos mais nova. Não foi isso que aconteceu comigo.

Minha pele continuará envelhecendo, haverá novamente flacidez e a gravidade continuará existindo. Um lifting não assina um acordo com o tempo. Por isso, inclusive, acho que cirurgia plástica não é para todo mundo. Se a expectativa for parecer permanentemente mais jovem ou congelar o envelhecimento, nenhuma cirurgia conseguirá entregar isso. No dia seguinte à operação, o tempo continua passando. 

O que eu queria era diferente. Não queria mudar meus traços, pelo contrário: um dos meus maiores receios era ficar com aquela aparência artificial em que você olha para alguém e percebe primeiro a cirurgia e, só depois, a pessoa. Queria que meu rosto continuasse sendo meu, apenas com aquilo que me incomodava corrigido. E foi exatamente o que aconteceu.

Quando tento explicar o que mudou na minha autoestima depois do lifting, sempre chego à mesma conclusão: não me senti mais jovem. Me senti no lugar.

Meu rosto está mais harmônico. Gosto mais de me maquiar, do que vejo nas fotografias e voltei a ficar feliz quando me olho no espelho. Mas não tenho a sensação de estar vendo uma versão rejuvenescida de mim. Eu vejo a Fernanda de 43 anos, só que bem cuidada.

Talvez essa seja a parte mais difícil de explicar para quem olha uma cirurgia plástica apenas pela perspectiva de vaidade: existe uma diferença enorme entre querer se transformar em outra pessoa e querer voltar a se reconhecer. 

Depois de tudo o que meu corpo viveu, houve um período em que minha imagem deixou de combinar com a imagem que eu tinha de mim mesma, não porque eu estivesse ficando mais velha, mas porque uma mudança relativamente rápida no meu corpo também mudou meu rosto de uma maneira que me causava estranhamento. A cirurgia não apagou o que aconteceu, não devolveu os anos. Não congelou meu rosto e não resolveu a minha vida. Ela resolveu aquilo que eu pedi que resolvesse. 

Se outra mulher olhar para o próprio rosto aos 43, 50 ou 60 anos e estiver absolutamente feliz com o que vê eu acho maravilhoso. Ela não precisa fazer nada. Não existe uma obrigação de corrigir o tempo.

Mas também não acredito que uma mulher precise permanecer insatisfeita para provar ao mundo que aceita envelhecer. Sei que meu rosto vai continuar mudando e espero que mude, porque envelhecer significa que o tempo está passando e eu continuo aqui para vivê-lo. A diferença é que hoje, quando me olho no espelho, sinto novamente uma coisa que tinha perdido durante algum tempo.

Eu sou a mesma Fernanda da vida toda.Eu não queria um rosto novo.Eu queria o meu de volta.

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