Dois países separados pela mesma língua

Dois países separados pela mesma língua

Custei a aprender o “sim” e o “não”: o português nega antes de você terminar a pergunta, e o brasileiro aceita antes de entender o pedido

“Mas será (im)possível?”: a frase atribuída a Bernard Shaw sobre Inglaterra e Estados Unidos, dois países separados pela mesma língua, serve como luva a Portugal e ao Brasil. Fato, peúga e pequeno-almoço rendem piada nas primeiras semanas e logo entram no vocabulário. O que custa a aprender mora no sim e no não: o português nega antes de você terminar a pergunta, e o brasileiro aceita antes de entender o pedido.

Do lado de cá, a recusa vem antes, e o resto da conversa serve só para confirmá-la. Peça ao canalizador que venha na quinta-feira e a resposta será um “impossível” sonoro, pronunciado com gosto e quase com orgulho. Sugira uma novidade ao chefe e ele vai responder “não me parece”, fórmula que dispensa argumento, alternativa e reflexão. Existe ainda a versão prolixa, que passa meia hora rodeando o tema, cita a crise de 83 e conclui, solene, que não lhe parece. O “pode ser” engana o recém-chegado, que comemora cedo demais, porque na tradução simultânea quer dizer que não vai ser. E quem veta sai sempre por cima: se o plano der certo, foi sorte, e se der errado, ele tinha avisado.

O “não” protege um patrimônio isento de imposto, o direito à queixa. Quem topa e vê a vida melhorar perde o assunto preferido do jantar e fica parecido com um elétrico fora dos trilhos, girando sem rumo pela Baixa. A negativa preserva a rotina e o desconforto conhecido, e a mudança, quando insiste, precisa pedir licença duas vezes antes de entrar.

O glossário do “não” tem verbetes para cada ocasião. 

O “não sei” costuma significar “não quero saber”, e o “fica para outro dia” remete a uma data que o calendário gregoriano ainda não inventou. Quando o presente que você trouxe do Brasil é recebido com um “é diferente”, convém guardar a nota fiscal. E quem ousa responder com um sim entusiasmado desperta suspeita imediata: “está com ideias”, comenta a família à mesa, e um tio que jamais tentou nada parecido acrescenta que aquilo não vai correr bem.

Do lado de lá, sofremos do mal oposto. O brasileiro solta um “deixa comigo” sem saber o que estão pedindo, jura que liga amanhã, de preferência sem especificar o ano, e avisa que está chegando enquanto ainda procura a toalha para entrar no banho. Nosso convite mais caloroso, o “passa lá em casa”, é uma senha de despedida que todo conterrâneo decifra e estrangeiro nenhum entende. Sérgio Buarque chamou isso de cordialidade, e quem convive com o homem cordial sabe que ele morre de medo de ouvir um não, motivo pelo qual também evita pronunciá-lo. A gente agrada agora para decepcionar depois e dorme em paz por ter sido simpático no momento oportuno.

A nossa lista tem tantos verbetes quanto a deles, só que todos afirmativos. “Vamos marcar” encerra uma conversa que nunca terá continuação, “semana que vem sem falta” adia por tempo indeterminado e “a gente se fala” anuncia o silêncio. O pedreiro que agenda o início da obra para segunda cedinho é instituição nacional, e o amigo que visualiza a mensagem e reaparece três dias depois com um “foi mal, tava na correria” também. Cada “pode ser” lusitano encontra no Brasil um “com certeza” correspondente, e os dois significam o mesmo.

Levei tempo para perceber que os dois dialetos não se traduzem. No meu inverno de estreia em Lisboa, me despedi de um vizinho com um “aparece lá em casa” automático, e no domingo seguinte, ao meio-dia, ele tocou a campainha com uma garrafa de tinto do Alentejo e a mulher pelo braço. Ficou até às seis da tarde e, na saída, me convidou para um cozido à portuguesa dali a uma semana, convite que era para valer. Naqueles dias, pedi a um colega que me apresentasse a um editor, recebi um “pode ser” e passei um mês esperando o telefonema. O vizinho levou a minha frase ao pé da letra, eu levei a do colega, e os dois erramos de dicionário.

Nas reuniões de trabalho, a diferença salta aos olhos. Numa sala de Lisboa, o projeto morre na primeira objeção, enterrado com honras de prudência. Numa sala de São Paulo, ele recebe aplausos, três “adorei” e um “vamos alinhando”, e morre igual, só que de inanição, esquecido numa pasta compartilhada que acumula poeira digital. O português que assiste à reunião paulistana volta para o hotel convencido de ter fechado negócio, e o brasileiro que enfrenta a lisboeta deixa o prédio achando que foi demitido.

No fundo, os dois vícios fogem de um único bicho, o conflito. Um recusa para não se comprometer, o outro concorda pelo motivo idêntico, e no fim ninguém entrega nada. São duas faces de uma moeda cunhada no velho império, que ensinou a metrópole a fechar a porta e a colônia a prometer que abre.

Depois de tantos anos com um pé em cada margem, fiquei bilíngue em evasão. Aos amigos do Rio respondo “impossível” sem pestanejar, feito canalizador de Arroios, e aos portugueses ofereço “deixa comigo” com o sorriso mais tropical do Hemisfério Norte. Minha mãe já aprendeu que o meu “vou ver” é um não educado, e o meu senhorio ainda acredita quando eu digo que a transferência sai hoje. Esta coluna, por exemplo, ficou combinada com a editora para sexta-feira, e eu já avisei: deixa comigo.

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