Berinjelas orgânicas e um fuet
"Oiê! Tô indo pra feira da General Glicério com as meninas. Anima?"
Quarenta e cinco anos e eu nunca tinha recebido um convite para ir à feira. Nem sabia que feira podia ser programa.
Nada contra. Cansei de comprar flores às quartas-feiras no Leblon e legumes para a papinha do Pedro quando ele começou a comer pastoso. No início do namoro, gostava de curar a ressaca com pastel de pizza e caldo de cana junto com o André naquelas barracas de plástico cobertas por lonas desbotadas.
Mas me arrumar para passear entre berinjelas orgânicas, queijos artesanais e ovos caipiras? Nunca.
De vestido soltinho, mocassim de crochê, coque milimetricamente bagunçado, blush rosado nas têmporas e o cesto de palha que comprei em Trancoso no verão retrasado jurando que um dia seria esse tipo de mulher, lá fui eu.
Carol compartilhou a localização. Estava no começo da ladeira.
Sempre disposto a proteger minha privacidade, especialmente quando ela não interessa, o algoritmo do aplicativo me deixou exatamente na porta da feira. Todo mundo na calçada podia ver aquela mulher descendo de um sedan preto, tentando parecer espontânea com uma cesta trançada a tiracolo.
Comecei a subir a General Glicério.
Passei por um homem de camiseta branca e um short jeans que certamente já tinha sido calça. Carregava um vaso enorme de manjericão e respondia em voz alta aos acenos de um grupo que se preparava para uma roda de chorinho.
Outro, de camisa do América, segurava um copo Stanley numa mão e uma garotinha de cinco ou seis anos na outra.
Mais adiante, um terceiro discutia com o feirante a diferença entre tomate italiano e tomate coração-de-boi. Um pão de fermentação natural debaixo do braço.
Em qualquer outro momento da minha vida eu teria apertado o passo para encontrar minha amiga. Naquele sábado, diminuí o ritmo. Quanta gente bonita pode existir num sábado de manhã? Onde essas pessoas se escondiam durante a semana?
Passei anos procurando gente interessante em bares com drinques assinados e cardápios em inglês. Devia ter começado pelo supermercado numa segunda-feira.
Onde eu tinha me escondido durante anos?
Encontrei Carol na fila da tapioca, a ecobag lotada de coisas que estragariam na geladeira.
"E aí?", perguntou, sem tirar os olhos do moço que virava a massa no ar.
Não deu tempo de responder: ele apareceu. Camisa de linho amarrotada, os primeiros fios brancos na barba, um vira-lata preso numa coleira de couro que provavelmente custou mais do que a feira toda. Parou na banca de embutidos e levou um pedaço de fuet ao nariz. Observou a peça com a concentração de quem avalia um vinho raro.
Enquanto fingia interesse em uma berinjela orgânica com a cabeça torta, ele me olhou. Nervosa, apertei o legume com força. Ele sorriu.
"As pequenas são mais doces."
Putz.
“Sério? Sempre preferi as maiores."
Ele riu.
Seguiu andando, deixando para trás a estranha sensação de que, depois dos quarenta, um sábado de manhã podia ser muito mais promissor do que uma sexta à noite.
Já em casa, uma caixa embrulhada num papel pardo escandalosamente discreto me esperava sobre a mesa de cabeceira. Ignorei.
O celular vibrou. Era Carol. “Ainda pensando no homem do fuet?”
Respondi com um emoji de berinjela.
Só depois abri a caixa.
Leia o capítulo anterior aqui















