Diário de uma man-eater: cap. 2

Diário de uma man-eater: cap. 2

Os relatos íntimos de uma recém-divorciada de 45 anos

O problema de sobreviver é que uma hora o corpo reaparece… 

Cabelo emaranhado, travesseiro no chão e o lençol preso entre os dentes. Ainda sentia o corpo estremecer quando acordei no escuro, sem entender direito o que estava acontecendo. Fechei os olhos com força e apertei uma perna contra a outra.

Não sairia dali por nada.

Queria lembrar de mim.

As imagens vinham aos pedaços. Uma mão segurando firme a minha nuca, um drinque azul escorrendo pelo vestido, meu rosto arranhado pela barba malfeita. Música alta, luz fragmentada, cheiro melado. Um homem que não era você.

Completamente despida, abri a janela e deixei o sol invadir o quarto fechado há dias, meses, talvez anos. Caminhei até o banheiro e parei diante do espelho para me ver por inteiro. Apesar da magreza e da falta de tônus que vieram com a separação, ainda dava um caldo. Provavelmente mais ralo que dez anos atrás, quando me casei, mas dava. Ri de mim mesma, quanta bobagem.

Enchi a banheira com água quente e despejei todos os óleos que encontrei na bancada. Queria sair cedo, aproveitar o dia. Comprar roupas, tomar uma taça de vinho, almoçar com uma amiga. Depois pegar as crianças no colégio. Faz tempo que não vamos ao cinema. Sei lá…

Já tinha passado tempo demais envelhecendo no escuro.

Talvez não tenha sido tão ruim me separar de você.

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