
Festival de Cannes: do glamour à repercussão, o que você precisa saber
Sem Hollywood, a 79ª edição do Festival de Cannes começou com uma cerimônia que celebrou o cinema como um “ato de resistência”
O Festival de Cinema francês segue até 23 de maio, quando um dos 22 filmes em competição recebe a Palma de Ouro. Esta é uma edição marcada pela ausência de Hollywood, momento em que Cannes reforça seu papel como vitrine de diretores e atores consagrados, ao mesmo tempo em que apresenta novos talentos.
O NO SHOW DE HOLLYWOOD
Pela primeira vez desde 2017, nenhum filme de um grande estúdio americano terá sua estreia no Festival de Cannes. Custos na casa dos sete dígitos e o medo de cancelamentos nas redes sociais espantaram os blockbusters desta edição.
Entre os grandes filmes que já usaram o festival como trampolim estão Top Gun: Maverick e Missão: Impossível — O Acerto Final, ambos da Paramount. Este ano, a presença americana se resume a produções independentes: The Man I Love, romance queer de Ira Sachs, com Rami Malek, e Paper Tiger, de James Gray, com Scarlett Johansson, Adam Driver e Miles Teller.
A lógica dos estúdios é simples: exibir um filme para milhares de jornalistas é uma aposta arriscada. Se a recepção for morna, o estrago é imediato — e nas redes sociais, críticas negativas viralizam antes mesmo de soltar o primeiro press release. Cannes se torna um custo fácil de cortar.
Indiana Jones e a Relíquia do Destino teve sua estreia mundial em Cannes em 2023, foi recebido com críticas abaixo do esperado e arrecadou apenas US$ 384 milhões — contra um orçamento de produção de US$ 295 milhões. A questão se estende a outros festivais, como é o caso de Coringa: Delírio a Dois, apresentado em Veneza em 2024: detonado pela crítica, o filme arrecadou US$ 200 milhões contra um orçamento de US$ 300 milhões. O festival segue. Hollywood, por ora, fica em casa.
A ASCENSÃO DA ÁSIA
Com Hollywood ausente, a Ásia ocupa a Croisette — o famoso boulevard à beira-mar de Cannes que serve de palco para o festival — com força e consistência. A começar pela escolha do júri: pela primeira vez, um cineasta sul-coreano preside a competição: Park Chan-wook, diretor de Oldboy e Decisão de Partir.
Dos 22 filmes em competição, três são japoneses, incluindo Sheep in the Box, de Hirokazu Kore-eda. O mais aguardado é o coreano Hope, suspense e ficção científica do diretor Na Hong-jin, descrito por Thierry Frémaux, diretor do festival, como um filme que “muda constantemente de gênero”.

ORGULHO NACIONAL
A presença do Brasil em Cannes se dá pelas telas e bastidores. Selton Mello integra o elenco de La Perra, produção da cineasta chilena Dominga Sotomayor, selecionado para a Quinzena dos Cineastas, enquanto o produtor Rodrigo Teixeira está por trás de Paper Tiger, um dos filmes em competição pela Palma de Ouro. Entre os novos talentos está o paulistano Lucas Acher, selecionado para a La Cinef — seção dedicada a estudantes de cinema — com o curta Laser-Gato, entre mais de 2.750 inscrições.

DÉBUT EMOCIONANTE
O festival marca a estreia de John Travolta como diretor com Propeller One-Way Night Coach, exibido na seção Cannes Première, fora da competição principal. Baseado no livro infantil que Travolta escreveu para seu filho em 1997, o filme acompanha a viagem de ida de um jovem apaixonado por aviões com sua mãe para Hollywood. Sua filha Ella Bleu Travolta interpreta uma das comissárias de bordo. Um projeto de família, em todos os sentidos. O filme chega ao Apple TV+ em 29 de maio.

AI: SIM OU NÃO?
O documentário John Lennon: The Last Interview, de Steven Soderbergh, exibido fora da competição, é a produção mais debatida desta edição. O filme captura a última entrevista de John Lennon, gravada em 8 de dezembro de 1980, quando ele e Yoko Ono se reuniram com uma equipe de rádio em seu apartamento em Nova York para promover o álbum Double Fantasy. Poucas horas depois, Lennon foi assassinado.
Soderbergh transformou a gravação de áudio em um filme, usando fotografias de arquivo e, de forma controversa, imagens de Lennon geradas por inteligência artificial.

Após a sessão especial de O Labirinto do Fauno, em celebração aos 20 anos do filme, Guillermo del Toro subiu ao palco e disse: “Foda-se a AI. Arte não pode ser feita com um aplicativo!” Mais cedo, na coletiva do júri, Demi Moore havia defendido o oposto. "A AI está aqui. Lutar contra ela é travar uma batalha que vamos perder. Então encontrar formas de trabalhar com ela é, acredito, um caminho mais valioso.”
CINCO ENTRE VINTE E DOIS
O poster oficial desta edição celebra Thelma & Louise — ícones do cinema feminista. Na competição principal, porém, apenas cinco dos 22 filmes são dirigidos por mulheres. Menos que os sete do ano passado, que foi o recorde histórico do festival.
O coletivo feminista 50/50 acusou os organizadores de "feminismo de fachada". Thierry Frémaux respondeu publicamente na véspera da abertura: "Não há absolutamente nenhum momento em que estamos escolhendo o filme de Ridley Scott para o poster com o objetivo de nos dar uma imagem feminista."

Os números contam outra história. Em quase oito décadas de festival, apenas três mulheres venceram a Palma de Ouro — Jane Campion, Julia Ducournau e Justine Triet. Das 82 diretoras que já tiveram filmes na competição principal, contrastam com 1.688 homens no mesmo período.
"Hoje vemos cada vez mais diretoras no cinema emergente, então elas estão gradualmente chegando à competição", disse Frémaux. Para o coletivo 50/50, porém, gradualmente não é suficiente.
PARA SEMPRE EM CARTAZ
Em Cannes 2026, as mulheres ainda são minoria, mas as que estão ali, ocupam posições de destaque. E a maioria tem mais de 60 anos.
Catherine Deneuve, aos 82, retorna não como figura de retrospectiva, mas como atriz em plena atividade — com dois filmes na competição: o drama Parallel Tales, de Asghar Farhadi, ao lado de Isabelle Huppert, aos 71, e Vincent Cassel; e Gentle Monster, da diretora austríaca Marie Kreutzer.

No palco do Palais des Festivals, Jane Fonda, aos 87, e Gong Li, 59, abriram o festival com discursos sobre resistência e o poder do cinema. "O cinema sempre foi um ato de resistência porque contamos histórias, e as histórias representam o que constrói uma civilização", afirmou Fonda. Gong Li celebrou uma arte que "transcende as línguas, as culturas e as gerações". A cerimônia foi conduzida pela atriz Eye Haïdara, com forte tom político.

Demi Moore, aos 62, integra o júri presidido por Park Chan-wook — e no primeiro dia já protagonizou um dos debates mais comentados do festival sobre AI.

BARRADOS NO BAILE
Diretrizes do que vestir no red carpet foram divulgadas pelos organizadores do festival, proibindo inclusive tendências da última edição, por “razões de decoro”.
“Trajes volumosos, especialmente aqueles com cauda longa, que prejudicam o fluxo adequado dos convidados e complicam a acomodação no teatro, não são permitidos”, diz o site oficial.
As regras quanto à pele à mostra também foram enrijecidas. “A nudez é proibida no tapete vermelho, assim como em qualquer outra área do Festival.”
Tênis, bolsas grandes ou mochilas também estão barrados nas sessões à noite no Grand Théâtre Lumière.
Para quem quer causar, este talvez não seja o melhor lugar.
A SURPRESA
Corta para o momento “surpresa” da cerimônia de abertura, quando a Palma de Ouro honorária foi entregue para Peter Jackson, o cineasta neozelandês da trilogia O Senhor dos Anéis. No ano passado, a homenagem foi para Robert De Niro. No anterior, para Meryl Streep.
O diretor disse ter ficado muito surpreso com a honraria. "Não entendi por que estava recebendo uma Palma de Ouro. Não sou bem um cara de Palma de Ouro.” Ok, então.

O MAIS APLAUDIDO
A animação Tangles, dirigida por Leah Nelson e produzida por Seth Rogen, estreia em Cannes trazendo um tema incomum para o gênero: o Alzheimer. O filme, ambientado nos anos 90, em preto e branco, acompanha Sarah, que deixa sua vida agitada em São Francisco para voltar à sua cidade pequena e conservadora e cuidar da mãe diagnosticada com a doença.
O tema é pessoal para a equipe. Lauren Miller Rogen, esposa de Seth e co-produtora, perdeu a mãe e os avós para a doença, e os dois fundaram a ONG Hilarity for Charity em apoio a famílias afetadas pelo Alzheimer.
Na estreia em Cannes, o filme recebeu sete minutos de aplausos em pé.



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