Fazer amigos nem sempre é um bom negócio

Fazer amigos nem sempre é um bom negócio

Dezesseis anos depois de A Rede Social, o Facebook volta a ser o centro de uma narrativa que revive a investigação que expôs os bastidores da companhia

O jornalismo está em alta — pelo menos nos cinemas. 

Depois do Festival de Veneza lançar Ink, de Danny Boyle, sobre o tabloide britânico The Sun (em exibição no Festival do Rio e que chega aos cinemas em dezembro), a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo vai apresentar O Outro Lado das Redes (The Social Reckoning), de Aaron Sorkin. 

O filme acompanha a engenheira de dados do Facebook Frances Haugen (Mikey Madison, em seu primeiro papel após o Oscar de melhor atriz por Anora, de 2025) e o jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), responsáveis por expor documentos internos da empresa. 

Embora anunciado como sequência de A Rede Social (2010), de David Fincher, o novo filme é muito mais sobre jornalismo do que sobre o Facebook.

Se A Rede Social girava em torno de Mark Zuckerberg, vivido por Jesse Eisenberg, e mostrava a origem do Facebook, agora o CEO da Meta (o novo nome do Facebook) é vivido por Jeremy Strong (da série Succession), mas tem papel secundário na trama. 

O diretor e roteirista Aaron Sorkin — que também assinou o roteiro de A Rede Social — mostra Zuckerberg como um homem robótico, e a maioria de suas cenas gira em torno dos preparativos para um depoimento no Congresso americano. 

Ele não interage com os verdadeiros protagonistas, que são Frances Haugen e Jeff Horwitz. A dupla, bem interpretada por Madison e Allen White, faz o estilo de Bob Woodward e Carl Bernstein, jornalistas imortalizados por Robert Redford e Dustin Hoffman no clássico Todos os Homens do Presidente, de 1976, dirigido por Alan J. Pakula.

Woodward e Bernstein investigaram a invasão da sede do Partido Demo­cra­ta em junho de 1972, que resultaria na queda do presidente dos Estados Unidos Richard Nixon naquele que ficou conhecido como Caso Wa­tergate. 

Todo o processo de apuração dos fatos e proteção de fontes é muito bem descrito em Todos os Homens do Presidente, que mostra o cotidiano do jornalismo investigativo. 

Em O Outro Lado das Redes, Aaron Sorkin segue essa linha, só que Frances é a fonte — que, a princípio, quer ficar anônima — e Horwitz é o jornalista de Washington avesso à tecnologia que tem o faro para fatos obscuros, e enxerga atitudes suspeitas no Facebook de Zuckerberg. 

Ainda que a interpretação de Mikey Madison e Jeremy Allen White não esteja à altura de Robert Redford e Dustin Hoffman — e os personagens também não — é visível a química entre os atores, e isso rende algumas das melhores cenas do filme. 

Para Jeremy Strong sobra pouco, mas a antipatia ao seu Mark Zuckerberg está garantida do início ao fim do longa.

O Outro Lado das Redes mostra Jeff Horwitz (Jeremy Allen White) chegando ao Wall Street Journal disposto a desvendar o que há por trás do Facebook, ao mesmo tempo em que Frances Haugen (Mikey Madison), que trabalhava na empresa, começa a se incomodar com algumas situações em seu ambiente de trabalho. 

Os caminhos deles se cruzam quando Haugen decide vazar anonimamente algumas informações internas do Facebook, porém Horwitz precisa de provas.

Haugen demora, mas cede e entrega os documentos que servem de base para uma série de reportagens de Horwitz, publicadas em 2021, que revelaram como mudanças no algoritmo favoreciam a difusão de discursos de ódio e informações falsas. 

Um estudo interno (ignorado por Zuckerberg e companhia) que apontava impactos negativos do Instagram sobre a imagem corporal e a saúde mental de adolescentes, especialmente meninas, também foi alvo das denúncias do jornalista.

O roteiro de Aaron Sorkin toma liberdades em relação aos fatos e personagens, mas a essência da história que chocou o mundo está lá. 

A engenheira de dados Frances Haugen foi contratada pelo Facebook em 2019 para ser gerente de produto líder da equipe de desinformação cívica, que lidava com questões relacionadas à democracia e desinformação. Em 2020, ela começou a ficar incomodada com as escolhas da empresa, segundo revelou em entrevista ao programa 60 Minutes da CBS, um ano depois. 

Na época, Haugen tinha deixado o Facebook fazia poucos meses, mas antes copiou e compartilhou uma série de memorandos e documentos internos com um jornalista do Wall Street Journal, Jeff Horwitz, com quem vinha trabalhando secretamente fazia algum tempo.Ele publicou o material ao longo de três semanas, em uma série de reportagens que, posteriormente, ganharia o prêmio Pulitzer, um dos mais relevantes do jornalismo.

Para os fãs de A Rede Social, que recebeu oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, diretor e ator — e venceu três, roteiro adaptado, de Aaron Sorkin, montagem e trilha sonora — encarar O Outro Lado das Redes como continuação é quase um insulto.

Um dos segredos do sucesso do longa de David Fincher é o roteiro de Sorkin, que transformou o livro não autorizado Bilionários por Acaso em um drama moderno, com diálogos afiados e uma análise crítica e crível dos personagens. 

A habilidade de Fincher como diretor e a ótima interpretação de Jesse Eisenberg como Mark Zuckerberg também fazem a diferença no filme. 

O Outro Lado das Redes, no entanto, não coloca holofotes no polêmico Zuckerberg. O olhar negativo sobre suas atitudes está lá, mas sempre do ponto de vista da funcionária insatisfeita e do jornalista que sabe ir atrás de um ‘furo’ de reportagem. 

Embora conte com bons momentos, ele é muito mais um thriller sobre jornalismo investigativo. Não seria errado dizer que é um novo filme com o mesmo personagem de A Rede Social — no caso, Mark Zuckerberg — mas partindo do que os outros acham dele e de suas atitudes controversas. 

E é necessário ressaltar, Aaron Sorkin continua um ótimo roteirista, mas não consegue repetir — nem chegar perto — da habilidade cinematográfica de David Fincher.

Ainda assim, quem assistir ao filme sem se prender a comparações, poderá aproveitar a narrativa e tirar suas próprias conclusões sobre o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021, que poderia ser um divisor de águas na política interna do Facebook. 

Poderia, mas definitivamente, não foi.

Depois da exibição na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece entre 15 e 29 de outubro, O Outro Lado das Redes chegará aos cinemas brasileiros em 22 de outubro. Após a sessão, certamente muitos espectadores vão postar no Instagram — e, por que não, no Facebook — suas opiniões sobre o filme. E vão confirmar aquele que parece ser o lema de Mark Zuckerberg: ‘falem mal, mas falem de mim.’

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