Com o espetáculo Remix, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, a coreógrafa carioca Deborah Colker, de 65 anos, olha para trás em busca do futuro. O trabalho revisita cenas de quatro montagens marcantes, Vulcão (1994), Rota (1997), 4x4 (2002) e Belle (2014), com uma visão revigorada pelo amadurecimento.
Deborah não é mais a mesma mulher e tampouco a mesma artista. O público também se renovou a ponto de os jovens ocuparem a plateia com entusiasmo semelhante ao dos dezesseis bailarinos que formam o elenco de Remix, a maioria entre 19 e 24 anos, vários nem nascidos na época das estreias.
Desde Nó (2005), a coreógrafa vinha em uma intensa levada de propostas originais estimuladas por desejos e necessidades. São exemplos Belle (2014), inspirado no romance Belle de Jour, escrito pelo francês Joseph Kessel (1898-1979), e Cão Sem Plumas (2017), baseado no poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999).

Já Sagração (2024), idealizado a partir da partitura A Sagração da Primavera, do compositor russo Igor Stravinsky (1882-1971), discutia as origens do Brasil primitivo e os embates entre machismo e feminismo. “Eu sempre busco coisas do meu tempo para falar,” justifica.
Bem mais pessoal foi Cura (2021), uma ponte entre a fé e a ciência em homenagem ao seu neto Theo, que enfrentou uma mutação genética (epidermólise bolhosa) e morreu em março, aos 14 anos. “Era a cura para o que não tem cura,” diz, com a voz baixa. “A morte faz parte da vida, eu sei, estou levando cada dia para ressignificar, mas me sinto dilacerada.”
Além da perda de Theo, o marido de Deborah, o cantor e compositor Toni Platão, sofreu um AVC em 2024, o que aumentou a provação nesta fase. O músico ficou internado quatro meses e, em casa, desde abril do ano passado, enfrenta uma rotina severa com fisioterapeutas e fonoaudiólogos. Aos poucos, volta a pronunciar algumas palavras e ensaia passos apoiado em muletas. “Eu sou uma missionária, abraço as missões que chegam a mim,” disse.
Sem cabeça para montar algo inédito, veio a ideia de Remix até como um alívio para as tristezas. “Não sei se a arte ajuda a amenizar a dor, mas me faz viver,” comenta. Aos poucos, a artista entendeu que a possibilidade de revisão da própria obra não significava nostalgia e sim um diálogo com o tempo presente. Um novo público poderia conhecer alguns pilares da Companhia de Dança Deborah Colker, fundada em 1994.

O primeiro espetáculo, Velox, estreou em 1995, inspirado em alpinismo, lutas marciais e outras práticas esportivas. “Fui escorraçada no meio da dança e por parte da crítica,” lembra. “Uns falavam que era circo, outros esporte, tudo menos dança, então a gente fica abalada no café da manhã, mas almoça um pouco mais feliz e segue em frente.”
Deborah explica como Remix venceu o tempo com a mesma empolgação de quem criou algo na semana passada. Do espetáculo Vulcão (1994), a coreografia Paixão, segundo ela, não é sobre o amor, mas sobre intensidade, algo que perturba a vida e a existência.
Delírios, cena de Belle (2014), trata do embate entre o instinto e a razão, enquanto em As Meninas e Vasos, de 4x4 (2002), tudo é racional, uma investigação milimetricamente calculada do espaço cênico como um jogo de xadrez, o oposto de Paixão e Delírios.
As coreografias Gravidade e Roda, do espetáculo Rota (1997), porém, é o que se fala de Deborah Colker. A artista define as duas peças como exemplares da força física e da geometria do movimento. “Em Gravidade e Roda, os corpos jovens são fundamentais por causa da técnica acrobática aliada ao contemporâneo,” justifica.

Deborah adorava música e esportes na infância e na adolescência. Começou a tocar piano aos 7 anos e jogava vôlei para descarregar uma energia incontrolável até hoje. Entre um talento solitário e outro coletivo, veio a faculdade de psicologia que abriu a sua mente para muitas coisas, inclusive o teatro.
Em algumas das sessões de Remix, ela sobe ao palco e toca Mozart ao piano. “Sempre fui disciplina, obsessiva, observadora, mas até hoje não sei por que comecei a dançar,” reflete. “Deve ser porque sempre acreditei que o corpo fala, pensa e se emociona.”
A artista fez preparação corporal para peças de teatro dos diretores Ulysses Cruz, Antônio Abujamra (1932-2015) e Aderbal Freire-Filho (1941-2023), coreografias para shows da cantora Fernanda Abreu e do poeta Fausto Fawcett e videoclipes da MTV. “Percebi que enfrentava limitações criativas porque, claro, trabalhava para os outros e era hora de fazer o meu,” diz. “Acho incrível que tudo o que me envolveu, o piano, o vôlei, a psicologia, foi canalizado para as minhas coreografias.”
Dia desses, Deborah ouviu de um amigo, o roteirista Vinicius Vianna, que ela encontrou o seu lugar no mundo e concordou com a ideia. Por isso, se empenha na manutenção da sua companhia, que sustenta uma estrutura fixa de 40 pessoas, entre bailarinos, professores, técnicos e equipe de escritório, fora os contratados eventuais.
“Tenho um lado meu que sofre com as dificuldades financeiras e pensa que seria melhor tocar projetos individuais, um de cada vez, mas logo vejo que gosto mesmo é de criar com a minha galera,” disse ela, que, hoje, tem patrocínio da Vale e da Petrobras.
Na lida diária com os jovens, a coreógrafa sente o grito da diferença geracional. Para Deborah, a internet gera apenas informação e não conhecimento e, paradoxalmente, promove um ativismo bacana que facilmente pode ser sectário e alimentar a intolerância.
Em relação à Inteligência Artificial é totalmente a favor e acredita que as novas tecnologias podem estimular a inventividade. “A menor maneira de criar uma mente aberta é olhar a vida por outros ângulos. Converso demais sobre essa questão com a turma mais nova,” disse. “Até porque meu trabalho é isso mesmo, aberto, difícil de definir e talvez por isso é autoral, tem personalidade.”















