100 anos de John Coltrane, o profeta que espiritualizou o jazz

100 anos de John Coltrane, o profeta que espiritualizou o jazz

Como o músico transformou o jazz em uma forma de elevação espiritual que segue ressoando

Se Miles Davis, nascido apenas 120 dias antes, teve uma vida marcada pelo hedonismo, pela paixão (e pelo consumo) daquilo que de melhor a vida poderia proporcionar em termos materiais, John Coltrane fez da sua curta existência de apenas 40 anos uma incessante busca pelo conhecimento espiritual.

Musicalmente eram siameses; pessoalmente, distintos. E a maior diferença estava no que havia de mais íntimo. Coltrane foi um iluminado, que via na música um caminho para alcançar a elevação espiritual.

Em tempos fluidos e acelerados como os atuais, seus ensinamentos merecem ser constantemente lembrados — especialmente nesta quarta-feira, quando o mundo celebra seu centenário. 

Sua influência para seus contemporâneos — aí incluídos não apenas músicos, mas também críticos e ouvintes — é uma lição permanente. Como um vanguardista que nunca se afastou demais da tradição, o músico pode ser percebido como alguém que fez de sua evolução musical algo atrelado ao crescente interesse espiritual. 

Tamanha comunhão passou a permitir que, com o tempo, seu instrumento (primeiro o sax-tenor, depois o sax-soprano), pudesse ser visto e ouvido como uma extensão de seu corpo. O sopro que dava origem ao som também se transformava em uma nova forma de vida.

Mas nem sempre foi assim. John William Coltrane nasceu em 23 de setembro de 1926 em Hamlet, na Carolina do Norte. Quando tinha dois meses, a família se mudou para High Point, também na Carolina do Norte, após a nomeação de seu avô, o Reverendo William Blair, para a Igreja Metodista Africana Episcopal de Sião.

Em 1939, aos 13 anos, Coltrane perdeu seu pai, seu tio e seus avós em um intervalo de um mês. Logo, sua mãe começou a trabalhar como doméstica para sustentar a família, enquanto ele terminava os estudos. Em 1945, Coltrane entrou para a Marinha. Designado para servir no Havaí, ele começou a tocar na banda militar.

De volta à vida civil, a partir de 1948, Coltrane passou a perambular por conjuntos e pequenas orquestras. A de maior destaque foi a de Dizzy Gillespie, mas o vício em heroína abortava as temporadas e impedia que o músico pudesse desenvolver uma carreira.

Assim, Coltrane ainda não chegara aos 30 anos e já parecia no fim da linha.  Bebendo muito e viciado em drogas, ele foi salvo pela música e começou a formatar a sua revolução sonora no final dos anos 1950.

Ele então estava com 33 anos — uma idade avançada para os padrões do jazz — quando decidiu engendrar uma das mais radicais revoluções na história da música americana. 

A partir de Giant Steps (1959), ele desenvolveu sua concepção musical baseada nas sheets sounds, as camadas de sons, que nada mais eram do que longas sequências executadas em tempo rápido nas quais as notas se fundem numa vaga contínua. My Favorite Things (1960) reafirmaria essas ideias. Mas até então tudo isso era apenas uma prévia para a revolução maior.

Essa revolução tinha um nome: free jazz. Afinado com aqueles tempos agitados nos Estados Unidos, o movimento previa conceder à música liberdades até então inimagináveis. 

O jazz enveredava por caminhos sinuosos e irreversíveis.

A transição da gravadora Atlantic para a Impulse coincidiu com o aumento do interesse de Coltrane por temas místicos e espirituais. 

Se já era um paradoxo pelo fato de ser um grande improvisador que se interessava por estudar a teoria da música, Coltrane ampliou ainda mais os limites sonoros ao colocar suas composições no nível da superação. 

O manifesto musical seria A Love Supreme (1964), uma suíte em quatro partes traduzida em faixas como Acknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm. Nas notas de capa do álbum, gravado em dezembro de 1964, Coltrane recordaria: “No ano de 1957, experimentei, pela graça de Deus, um renascimento espiritual que me levaria a uma vida mais rica, plena e produtiva.” 

Assim, pelos três anos seguintes, a música se tornaria uma missão. Coltrane faria turnês pelos Estados Unidos, Europa e Oriente e suas composições (Om, Cosmic Music e Meditations) ficariam impregnadas pelo caráter religioso. Coltrane estava moldando seu estilo musical em sintonia com a espiritualidade.

Em seus últimos anos, música e misticismo religioso se entrelaçariam ainda mais e o levariam a transcender as fronteiras do espetáculo para se tornar uma espécie de profeta dos novos tempos (não por acaso, anos depois de sua morte, foi criada, em San Francisco, a Igreja Africana Ortodoxa de São John Coltrane). 

Mas faltava uma última revelação. E ela ocorreu há 60 anos.

Em julho de 1966, Coltrane chegou ao Japão para uma turnê. Acompanhado de sua mulher, a pianista Alice Coltrane, o músico estava à frente de um quinteto.  

A agenda do grupo era exaustiva e envolvia a apresentação de 17 concertos no curto espaço de duas semanas. Mas em meio a essa intensa programação, Coltrane insistiu em incluir no roteiro uma viagem até Nagasaki, onde ele pretendia ver de perto o impacto que ainda marcava a cidade atingida pelo flagelo atômico 21 anos antes. 

Ao chegar ao local, Coltrane permaneceu a maior parte do tempo em silêncio.

Na noite do dia 16 de julho, John Coltrane apresentou uma nova composição, provavelmente feita na viagem de trem que fez de Tóquio a Nagasaki. A peça seria registrada como Peace on Earth — uma elegia pelos mortos no ataque nuclear americano e uma condenação à guerra em geral.

Seria uma de suas últimas gravações. À época, ele já enfrentava problemas hepáticos além de ser acometido por constantes dores de cabeça. 

John Coltrane morreria exatamente um ano e um dia depois desse concerto. Aquele havia sido seu testamento.

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